segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Colisão

Dentro da linha que distancia o tempo do espaço, cá estou.
Fora do centro entre o errado e o direito, meu ar não ficou.
Ao lado da esfera que circunda o cérebro não se ouve nada.
Os cabelos caem.
A roda fica quadrada.
E aos poucos bons que sobram, sobra água contaminada.
Esforços se dissipam num estrondo de palavras.

sábado, dezembro 15, 2007

Vôo

Estive pensando sobre os lirismos que envolvem o depois e os seus conceitos pouco prováveis.Desconheci por completo o sentido dos pensamentos e das idéias. Me lembro apenas de um dia. E de algo. Sinto o ar abaixo e o nada acima. Atrás, logicamente, o passado. À frente, o fruto do agora.

Estive gritando às paredes os meus segredos mais profundos. Desenhei alguns olhos para não me sentir só. Precisava de algo que voasse comigo... Que ficasse comigo. Não tenho nem notícias, nem certezas e muito menos, verdades.Durmo com uma coberta de dúvidas que me banha todas as manhãs depois de sonhos febris.

Estive acordado. Planejando sonhar.

Estive livre.

Estive junto.

Estive só.

Estive, estive... para estar.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Pecado Incompleto

SINTO tão perto de mim a vibração do ar que sai quente na tua boca. Como se falássemos bem de perto.
Bom é saber que há um fio, invísivel, que nos une e que é interminável. Onde quer que estejamos, lá estará. Mas não é o fio que importa; o que importa é justamente a não-importância que damos a esse fio que ignoramos que existe.
Essa loucura de não ter começo e de se planejar um fim; essa vergonha que me castiga todas as noites depois de um dia de pecados mortais imaginados.
Amor que me prende em pensamento e torna meus sonhos mais febris, quando o que quero, é apenas um delírio lúdico.

Preciso. Tenho que precisar.
Dessa leveza que te envolve.

Um golpe teu não deve pesar mais que uma gota d'água. Para o meu corpo pequeno, um carinho; para minha mente insólita, um assombro.
Guia-me no desencontro, pois não traço meus dias sozinho.
Encontra-me em ti, porque já não há mais formas de me esconder.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Glória

ELA ACORDOU. Mas o fato de ter acordado não revelava que estava presente. Ainda estava em seu sonho, seu dócil e amável sonho. Os sonhos eram a única forma de fazer com que as coisas continuassem vivas e acontecendo em qualquer hora ou lugar.
Sonhava com seu sonho realizável, que não tornava-se real por causa da distância. E a distância fazia com que sonhasse tanto, mas tanto, para que tivesse sua falsa concretização mais perto. O sonho era o fim de uma estrada que parecia interminável mas possível de caminhar. Era o que mantinha seus olhos fechados sob o azul do céu e sobre o negro da mente. Era o escape da realidade que a fazia criar o possível, o que ela sustentava sozinha todos os dias. Uma fuga. Assustadora, mas com o intuito de encontrar do que se foge...



Acordou e a consciência de um novo desencontro e da distância tomaram conta de seus pensamentos tão pouco humanos. E o seu amor por olhos fará com que os seus se fechem para poder procurar no escuro o brilho distante daquilo que busca, em sonhos.

sexta-feira, novembro 30, 2007

Em linha reta, sou o primeiro

UMA HORA SOU UM. Uma hora sou outro. Mas sempre sou eu. Eu, que sei mudar a minha voz e minhas palavras. Eu, o primeiro pronome do caso reto. Me entrego em mim; comigo fico feliz. Busco uma nova experiência como eu. Eu sei tão bem que não e que amanhã posso saber de novo. Sou preto no branco. Minha melodia igual a do piano. Minhas encenações deixo no banheiro ou dou a descarga. Um embalo sonoro me leva à uma nova introspecção.
Será que sou capaz de aguentar o amor que trouxe no bolso da calça? Ou rasgo todos os papéis.
Quero incendiar minha crença. Só posso acreditar em mim... Cada um é diferente. Um ponto me separa para começar a linha do segundo. Eu sou o primeiro. Primo de Narciso.
A covardia... O que tem ela mesmo? Sim. Uma fuga que planejo sempre quando vou dormir. Uma forma a mais de negar o que quero sentir.
Eu disse algo? Não sei.
Corri.

quinta-feira, novembro 29, 2007

Espadas

OLÁ! POIS É! Queria contar coisas para um ouvido. Os meus já se cansaram de me ouvir. A minha boca cansou de falar, mas eu preciso dizer algo. Que ficou trancafiado aqui desde semana passada mas que parece estar comigo desde que nasci. Nasci pra isso. Parece às vezes que isso me quer, quer que eu me cale e ouça mais um pouco a aula teórica intensiva que estou cursando. Aprendendo por fases a ter paciência maior do que a que tenho para aguardar quietinho num canto a chegada de algo que não existe. Os passos solitários na calçada logo pelo fim da noite. O adeus.
Ouvir o silêncio das suas palavras que me vêm como grafia perturba até o coração mais feliz. Até a felicidade sente agonia. Como quando nos agarramos em pescoços.
Não quero ficar na mesma linha e nem falar comigo.
Eis uma pequena tentativa de dizer o que não sei. A indecisão toma conta da calma e força. Impossíveis de se ter quando os campos nos convidam à corrida até o nada.
Falar um pouco sem ver os olhos é como sonhar. Incompreensível até o momento certo. E o momento certo fica distante e cravado numa pedra alta. Que pede que não sejamos nada para subir, e ao chegar lá em cima, encontra-se uma espada. Com punho em coração sangrando. Foi a primeira verdadeira conquista. A espada não existe mais.
Só o que pode estar além das nuvens é a cor dos olhos que são os únicos opostos a se atraírem por despertarem tanta curiosidade nos planetas. O azul do além fica parado tentando compreender a expansão bela do negro.
E devaneia, devaneia...

terça-feira, outubro 16, 2007

Troca de ordem

Submerso em meus próprios sonhos
Poderia colher os frutos de um passado amargo onde plantei com dor um pouco de amor.
Caso ousasse lhe dizer o que penso,
Estaria perdido e sem rumo algum
Se fosse possível esquecer dentro de mim o silêncio e lançar aos ventos as minhas bravuras.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Mecanismo Natural do Medo

Deu-se por perdido no instante em que vagou para a outra condução, sentindo-se empurrado por bolhas fortes, que sem querer, o faziam flutuar enquanto andava na agitação frenética que é uma despedida.
Todos os cristais que amava todos os dias, não poderia mais amar. Nunca mais. Tornaram-se vírus novamente, uma nova doença a ser condenada. Um fóssil prestes a ser queimado, prestes a se tornar combustível de ódio num mecanismo de medo.
Com os movimentos que fazia, os ruídos saíam milimetricamente de sua boca:
- Como seria difícil olhar para teus braços agora e vê-los jogando-se a outros mares, à outras praças. O meu nome já não é o mais belo da paróquia e os doces que estocamos vencem de inseguros. Estou a jorrar a última gota d'água que caiu de minha fronte, e sinto que o suor sob teus olhos não são lágrimas de uma emoção saudosa, mas sim um pequeno pedaço querendo um pouco mais de si própria. Minha cara flor, tuas pétalas ainda me iluminam e teu verde é um lago onde transparece a essência de teu ser puro e consumível. A natureza.

"Se todos os instantes em que folhas caíssem ao lado de meus olhos, e se todos os papéis caíssem em meus lábios novamente, choraria as dores que encheriam um rio novo de esperança."

terça-feira, setembro 11, 2007

Felino-cobra

"Aos meios de alma que me deixei transparecer, viram que as flores que carregava em meus pés não exalavam mais a mesma fragrância e fitaram com angústia a ausência de minha voz, deram a importância desnecessária à uma árvore que poderia cair sem frutos."

Mais um segundo brilhando nos olhos que viam atentamente o desenrolar de um tapete vermelho-sangue que tinha o tamanho de uma língua, que era capaz de ludibriar as veias daquele pobre felino e jogá-lo num fluxo que não pertencia. O desenrolar palpável deste pano era um modo de refrescar o coração que fervia no peito do felino que não ousava mais declarar seu amor com exatidão. A convicção de sentimentos o feria enquanto a água corria nas sarjetas do lado seu quarto aveludado.
Os ouvidos já não tinham mais a egoísta pretensão de tentar ouvir os grunhidos que o amor fazia ao seu lado, era muito mais fácil esperar até que eles viessem num bilhete, se rastejando aos pés da morbidez florida que as patas peludas conseguiam esconder.
Os elementos o jogavam numa atmosfera existencialmente humana:
- Fala que teu comportamento é o mesmo que antes?!, Fala?! -as pernas cruzadas denunciavam a impotência que cuspia sem vergonha sua ignorância- Não escondas de mim tuas entregas e nem fujas do que és... Eu, eu sou uma mosca-de-gato. Eu não existo. Enquanto tu estás existindo fluentemente e fazendo com que lhe odeie mais ainda. Mas meu amor, sabes o que pra mim é o ódio? Conheces essa bala muito doce que degusto todas as noites em minha cama enquanto julgo os Paranhos tão bem conservados no teto olhando para mim com desdém.
Não pretendo monologar com sombras! Tentarei continuar olhando as casas bege com o mesmo sorriso e estarei me vendo sorridente no reflexo das vestes pretas que carregas contigo todas as manhãs.

Não deixava nunca de negar a negatividade que plantava sem escrúpulos em sua pequena língua sem ponta.


Um pequeno diamante nascia nos olhos, que depois de muito tempo esperando, viam a beleza fluir nas letras que estavam no céu, atrás de sua janela, ao lado de seu rosto deitado. Mas ainda assim, superior.

segunda-feira, setembro 10, 2007

Indestrutível forma de recepcionar sensações

Fitava os grãos de areia no chão com ângulo tão curvado que mostrava toda sua sensação de não ter feito nada de especial. Seu ânimo era acessível (coisa difícil de ver-se em dias tempestuosos), porém a angústia derramava sangue nos seus olhos. Tudo que fitava tornava-se um pouco mais reto, horrível e indecifrável.

A grande afronta que fazia a si próprio era maior agora. E desconhecida, sua boca rogava pragas de ódio ao ventos que voavam nas linhas sonoras que caíam como estacas cravadas no chão duro de diamantes que cravejavam a área de um corpo pequeno. O teor de agonia e aperto era gigante, e o peso todo caía por terra quando extraía seu tormento.



- Por mais demorado que fosse esperar por estar aqui. Estou e arrependo-me de te jogado apenas tábuas insustentadas para que todos pisassem e andassem um pouco, sorrindo e brincando de nada. Por mais que as folhas insistam em me tornar maleável e em paz, mais as mudanças de rotina e de segmentos me torturam. Constatei que há muito tempo não batias a minha porta. Dependias de um empurrão de amor, um pequeno toque aveludado de belas mãos para que eu contemplasse os olhos distantes que sempre mostras em resposta de teus arredores sensitivos. A ordem já não é mais a mesma...

Os ruídos o interrompem e um pouco de náusea estoura em sua barriga inchada de tanto engolir carícias e gentilezas, mas parece que a náusea virará vomito logo depois que virar os olhos para o escuro e notar um pequeno brilho, se é que ele existe.
Virou-se, notou o pequeno brilho existente no escuro que insistia em não ver. Usou de metáforas e desculpas para não ficar solitário. A solidão é algo que atormenta as almas angustiantemente felizes e seu único remédio é a solidão conjunta. Pares de olhos parados esperando uma reação nova, uma mostra de dentes amarelados com olhos de icterícia e um pouco de cabelos caindo ao chão com o objetivo de mostrar que estava tudo tão correto.

- Preciso mesmo continuar exercendo minhas funções ordinárias e conceber prazeres que voltam a mim com grave tortura?- ajunta o fio de cabelo do chão- Refazer os estágios de minha mudança para constatar assim novas formas lógicas de constatações que jorram em dor; negociar os lucros de meus lamentos comigo mesmo e sentir melancólico prazer adocicado ao fitar a sensibilidade da flor mais bela, que pende nas costas da montanha mais ingríme que nenhum homem pôde alcançar?... Lamentavelmente não.

quinta-feira, setembro 06, 2007

Transição corpórea

Tão mais cansado, debilitado e fragilizado, sua alma parecia um cristal. Todos viam com medo intenso de tocar. Estava tão quebrado, quase doente. Não seria ele mais fonte alguma de inspiração. Apenas o mundo, essa grande bola de lama dura que ousamos chamar de lar. Lar.
A boca seca fazia de seus gostos os mais horríveis que já sentira e as pedras que colocava em seu caminho eram por pura correção, queria saber andar. Tropeçava insistentemente nos próprios acertos, corroía com lamúrias as virtudes e depredava com fúria a sua inocência:
- O que há de mais sensato numa cobra, senão as suas escamas?, que definem e que caracterizam seu veneno, sua mortalidade! Está no sangue! Hoje sou vermelho porquê explodi. Ainda uma pequena cobra chorosa saindo do ovo e mordendo o próprio rabo! Quisera eu emancipar meus sentidos e abandonar essa angústia que é ser um filhote, rastejando-me para tudo: comer, andar, ser, viver. Um submisso, um grande corrompido pelo amor de mãe. Que vontade estonteante que tenho de me morder, promover meu sangue, aliviar minha raiva e cuspir como remédio a minha pequena gota letal de dor!

Os olhos sempre virando, pararam diante de um pequeno espelho de borda dourada, que não significava nada mais que uma plenitude soberana falha sobre si mesmo, pensando na imensa podridão que acabara de semear em seu próprio interior e com risada demoníaca que saía de um pobre anjo cético:
- Corpo, doce chave que prende minha liberdade, limita meu espaço, destroça minha área, degrine meu ser; o que há em você, corpo? Se dizes meu e estás aí, a envelhecer enquanto sou uma víbora ainda jovem, trocando de pele e de vida. És um baú, pequeno e que serve apenas para guardar um carcaça que jaz putrefata no meu eu. Não me serves pra nada, agora sou um réptil com pele mais forte. Corpo, nada mais és do que um prelúdio da minha morte, um aviso, e um refúgio pra minha chegada.

terça-feira, setembro 04, 2007

Zelando o comodismo

Joga no chão o olho e cai em cima de um papel gasto pelo tempo e pela chuva. Ajunta-o, surpreende-se e voa com os olhos sobre o papel marrom. Senta-se no chão e lê em voz alta, confiante de que não serão asneiras:

-" 'Benditas sejam as cobras que zelam meu pescoço e que me servem de cabelo enquanto caio com demasiada raiva por sobre os ombros do meu pequeno príncipe guardião! Quisera eu andar sob as águas e nadar nos céus. Se meus braços ainda tão cansados batessem contra o rosto de um mundo inteiro, não seria mais uma fonte de sangue. Restaria em minha carne apenas um monte de farpas, dentes e gravetos.'

Ao término do seu próprio bilhete, a única sensação era de erro. Tudo o que faria a partir daí seria falho e sem vida. Os cachorros, sentados, aplaudiam cautelosamente cada palavra e enfraqueciam suas pequenas mãos querendo parar. A febre agora pulsava dentro daquele alegre coração:
- Pois bem, meus companheiros e amigos, se aqui não estivesse hoje, jamais saberia da alegria que é compartilhar com alguém e com o Maior os meus anseios e as minhas poucas angústias.

Os cães uivavam agora sem parar diante das imagens fixadas na parede. A luz tornava aquele ambiente ainda maior e mais amplo, porém arrancava a fé que qualquer homem pudesse ter, assim como faz a verdade. Todos os olhos voltados para uma escada, as línguas balançando e pendendo da boca, alertavam a entrada de um Supremo.
Vestimentas amarelas e floridas faziam daquele enorme bolo uma pequena árvore:
- O que ouvimos aqui agora nada mais é que um sussurro da morte aclamando por um pouco de vida, meus amigos. As idéias dispersas sem amor não podem dar ao homem nenhuma racionalidade!
O orador da carta toma-se possesso:
- Enquanto tua racionalidade, ó irmão, se faz com amor e solidariedade! As casas estão escondidas em teus braços, sentindo-se acolhidas pela farça que chamas verdade, e tua colcha é costurada com ouro, teu travesseiro de diamantes e a tua língua é suja com lama. A tua cura é o Tormento!
- ... Vejam, Todos!, o que há diante de nós! Um grande enganador, manipulador, enriquecedor da vaidade humana blasfemando contras as verdades do Supremo! Venha até aqui e continue a oração de tuas lamúrias, criatura desprezável.

Levanta-se da cadeira vermelha e desliza suavemente através do tapete dourado, dominado por selvageria e brutalidade nos olhos:
- Não há mais o que ler, somente o que se observar. A lógica plena dos meus sentidos não se aguça só na argumentação. Há viva em alguns de meus instintos. Em escolhas emocionais dir-se-ia que uso de malícia, mas nelas apenas esqueço de racionalizar. Vivo como vocês, irracional e frágil, pensando na plenitude de pensamento que se afugentou em minhas costas... Bem, não perderei minha raiva dentro de uma casa de bárbaries."

A mente um pouco interditada. Uma nova fé abalada e contradições inúteis em vista do que já houvera pensado agora o transformam em uma velha carcaça sem mudança e sem esperança de tentar falar consigo próprio.

segunda-feira, setembro 03, 2007

Um sopro amargo

A luz entrava no quarto como uma arma, sujando o corpo esticado sobre a cama. Tão exausto, pairava sobre os braços um semblante de derrota. Os pêlos estavam eriçados. A boca lacrimejava doces balbucias de desespero. A garganta se cortava:
-Não poderia ser mais fraco do que hoje! Os dias tão sublimes fogem do meu alcance e as condições da minha rotina estão me puxando ao além dos sonhos e das fábulas.- cai um pouco de veneno nos cotovelos - E essa história que estar vivo me cansa. O decorrer das palavras fará minha existência! Ah!
Cai no chão como uma pedra e agora a luz corta o azul dos olhos cobertos por fios prateados. Passos podem ser ouvidos vindos do lado de fora, as pedrinhas denunciam um novo criminoso. Batem na porta e a cólera domina a boca:
- Quem é o demônio que aqui vem para me importunar com desgraças?!
E a voz mais doce dos ventos responde:
- Sou eu, meu réptil, o sopro gelado do vento querendo entrar e te petrificar! - alguns risos - Cale essa boca maldita e abra a porta logo!

Levanta-se atordoado com pensamentos de morte, anda até a entrada de corpo limpo e abre a porta com as órbitas voltadas para o chão:
- Olá, meu caro tormento!, o que trazes de tão belo para um leão com sede? - e o abraço foi forte, quase um desmaio.
- Vim dizer-lhe que esta é a nossa última conversa. Minha metamorfose, transitei muito nos últimos dias. O tráfego dos meus pensamentos não é mais o mesmo e meu anseio de lhe ser muito veloz me assombra todas as noites em que não durmo. - tamborila os dedos no trinco dourado daquela porta devorada por cupins - E agora quero que entendas que minhas filosofias não serão mais as mesmas, mas que ainda és meu grande amor e nosso matrimônio é eterno até o último corpo se render à terra.

Atônito com tal notícia que já vinha aguardando há dias, e que era um fator para a raiva, não sabia o que lhe dizer. Cuspiria naquele rosto sujo e sincero mas não podia derreter uma obra que a natureza esculpira com tanta devoção. Levantou as órbitas e as mãos:
-Esperava por tudo isso até na minha última lágrima. Mas isso quer dizer que não nos veremos nunca mais? E que estás aqui hoje só para comer de minha carne e sair com a boca suja de um pouco de sangue amável?
- Não e sim. Vim aqui para lhe dizer que o conteúdo que sobrou em nosso frasco é guardado por leões e baleias e que todo o resto do mundo saberá de tua existência. A febre que pulsa no teu sangue é culpa do mundo que está me levando para esse rumo inacreditável que é a revolução. - o peito estufa- E eu irei daqui a três horas. Façamos delas as mais belas horas do Universo!
- Não, meu bem, não! Meu sangue jorra dentro de meu peito. Meus pés estão tão pesados agora que não sou capaz de andar rumo ao teus lábios. Tua face me mostra uma divindade terrível que me assusta e me repele. Então saiba que meu amor agora é febre e que tudo que há em nosso frasco nada mais são que lembranças de uma bela época percorrida com pulos. Agora meu amor está chorando e o sonho ficará para a outra vida que não existe.
- Estou indo.
- Adeus.

Virou as costas e as pedrinhas denunciaram o criminoso abandonando a prisão que o manteve ali por dias. Eternos dias de desespero e medo pela partida.
Àquela alma nada mais restava do que gritos e arranhões. As paredes viraram telas e os violinos do rádio eram dragões cuspindo fogo nos cabelos prateados que reluziam dentro daquele quarto mestiço.
Agora o que sobra é um pouco de vinho jogado sobre o colo e um papel escrito com palavras de despedida.

quarta-feira, agosto 29, 2007

Entrega visual

- Quem disse meu nome? - tira o cigarro amassado do bolso da calça jogada na cadeira.
- Não sei, acho que estás a ouvir coisas! - puxando os cabelos para cima do peito.
- Não poderia. Essa onda foi forte demais. - colocando os braços ao alto- Veja, ela levaria meus braços aonde quer que fosse. Tão nítida...
- Mas estamos sozinhos aqui, não há que te chame a não ser eu. E não o fiz.
Senta-se na cama, olha as cortinas, cheira as mãos, esfregas os olhos e os abre muito bem, como se quisesse explodi-los:
- Não me droguei hoje, meu bem. Os efeitos não existem. Se estamos a sós aqui por que estás tão menor? Onde mora a plena confiança que estabeleceram os nossos corpos?
- Não quero dizer nada sobre isso. - puxa a coberta macia de pêlos vermelhos e cobre a boca- É estranho te ver assim, tão reluzente, sem vestes e sem maldade. Olhe nos meus olhos. Isso é o que nos basta.
- Entendo perfeitamente. Não receio teu corpo de forma passageira. - cobre as pernas e a luz que vem da janela torna o abdômem rosado- Se o for, lhe almejo para sempre nos instantes em que for meu. E como se fosse a última vez - dá uma tragada no cigarro- não hesitaria em dizer que te amo. Te amo - joga o cigarro fora e os lábios se tocam de longe, pelo ar.
- Isso me envergonha. - e cobre as bochechas rosadas- Quem lhe veio a cabeça quando alguém te chamou?
- Sabes que não sei. - coça a cabeça em sinal de confusão.
- Talvez a idade esteja chegando e ainda nem destes conta disso. - joga-lhe um sorriso de deboche.
- Sou muito jovem pra ensurdecer. Ouço até aquilo que não me convém, que não me diz respeito, que me envergonha. O primeiro sintoma da minha velhice seria a cegueira. Veja, meus olhos ardem demais. Culpa dos azuis! Primeiro ficaria cego com o propósito de não ver as ações de destruição... A imagem sempre me castiga.
Levanta-se da cama, mostra-se por completo denovo. Caminha com passos serelepes até a janela e olha para a cama. Os olhares estão fixos:
- Antes de envelhecer, preciso ter a sensação da tua imagem. Porque sei que te ouvirei até o último dia da semana.
Puxa o pano vermelho e admira as curvas, os traços, os flancos, o batom vermelho, o pálido da pele; a escultura exposta.

Levanta-se da cama e vai em direção a ele. Toca o rosto e diz:
- Agora já podes sair, meu velho!

quinta-feira, agosto 23, 2007

Banhados de luz

- Estou guardado.
- E de que adianta se manter trancado dentro de si mesmo?
- Não preciso de remédios do mundo pra ser o que sou.
- Sei bem que é pelo mundo que crias.
- Não entendes de nada a não ser de teu ego.
- Caso lhe seja conveniente, vá arranjar o que fazer... Meu tempo torna-se precioso a medida que te vejo fixado dentro de minha concha. Mais um parasita.
- Veja!, eis o que te faz ruir. O tão precioso tempo... Maldito aquele que criou esse fator cultural tão disfarçado entre nós, ocidentais, voadores e avoados. Tempo é dinheiro.
- Então vá atrás do seu...
- Por que sempre lhe é tão bom interromper as explanações que faço? Já basta que tu sempre estás a dizer que erro.
- Não importa como ou o quê faças. A interrupção tornou-se um prazer enrustido na minha carne. Meus ciclos naturais se interrompem. Não sou mais uma rainha... Meus rodeios constantes não me fazem chegar a nada. Mas neles eu acho o homem e o homem me acha. Interrompo o homem e assim, ele me faz prosseguir. Sou uma rainha.
- És a menor praga que existe no mundo.
- Estás enganado. E bem sabes disso...
- Não me explique mais nada... Permita-me viver o ciclo e tentar voltar a ser o que era.
- Impossível! Já lhe disse isso mil vezes e quanto mais falar, mais tentarás ser o que fostes na inocência...
- Continuo sendo inocente e não existem razões para que me suje.
- Não te enganes. Tua alma torna-se pura a cada passo que trilhas nessa caminhada que os crentes chamam de vida. Caminhada a sua que acabará não no abismo. Mas sim nas águas límpidas e reconfortantes de tua existência. Sei bem que elas existem em algum lago que recebe os puros todos os instante e os tira a pouca sujeira que está impregnada em seus corpos.
- Não compreendo tuas filosofias de bar. Sempre tão ilógicas e sem fundamentos. Te denominas ateu e ao mesmo tempo usas a alma como forma de justificar tuas intenções.
- Ora, temos de convir que a alma do homem são os atos. Podes chamá-la de caráter, reputação, conduta, valores, cultura, personalidade. Mas eu chamo-a alma. Pequenina e relevante. Transformadora e flamejante. Assim é vossa alma... Não te julgas capaz de absolutamente nada. Mas teus movimentos impensados tiram as pessoas que te circundam de órbita. Sabes bem disso.
- Tenho de ir.
- Pois vá e transforme um pouco de tua caminhada em estrada. Vá e retornes quando bem entenderes. As minhas portas estão abertas para tentar te entender.
- Mas sou eu que preciso me entender.
- Só me parece ser possível entender aos outros, mas nunca a si mesmo. Me entenda que eu te entenderei...

segunda-feira, agosto 20, 2007

Rotina noturna

Dispersada no ar, as palavras que ela dizia, já não eram mais as mesmas. Voltava a ver em si o que dizia não. Viajava na sua própria alma... Mergulhava nos abismos. Secos e profundos.
Poderia ela dizer que o mundo não sente mais nada senão cólera. Uma indomável cólera que aumentava cada vez mais junto do seu falso sorriso de álcool que destilava seus lábios e fazia com que jorrassem gotas de ácido que caíam em minhas vestes. Derretiam um pouco de minha alma.
Os gracejos não eram mais os mesmos. Os cabelos acabaram de mudar. Ela sumiu de onde estava. Só podia ver um corpo, um rosto. O corpo continuava o mesmo mas nos olhos eu via o abismo que afundava todo o rosto numa pequena escuridão branca. Não havia escuridão sem aquela luz que jazia fria dentro do marrom dos olhos que pareciam-se também com árvores mortas.

Era impossível ver a liberdade e querer te prender. Comecei então, a confabular com meus companheiros de mente sobre moral, convicção, personalidade, justiça, liberdade e fraternidade. Constatações que apodreciam. Frutos que caíam das árvores e não tinham nenhum proveito. Nenhuma forma de convicção ou de dúvida se criava. Só ficava um grande abismo naqueles olhos. E meus braços já não podiam salvar mais nada.

Os corpos continuavam entrelaçados. Os braços fugiam de um lugar para outro e não conseguiam parar de correr por sobre aquelas peles lisas e frescas que queimavam por dentro, sem amor. Era o resultado que tanto esperavam e que ficava subentendido naqueles atos nada singelos.
Depois de tudo completamente acabado, não se tinha o que queria, os desejos não eram mais possíveis, os artifícios e o dinheiro já tinham acabado e não eram mais alegres pra falar. Sabia-se menosprezar e discutir.
Mas o corpo continuava como água. Os olhos se tornaram um lago profundo, com lágrimas doces que ardiam dentro dos olhos; uma espécie de cura que a mantinha inerte dentro de si mesma e congelava os braços que não aguentavam mais correr para outro lugar.
Eis tudo.

quinta-feira, agosto 16, 2007

Aviso ao senhor que pensa ser sabido

Vá pro inferno escrita ruim, ao menos hoje, que eu não quero ter nenhuma pretensão de expandir meus pensamentos aos dedos e depois às mentes das pessoas. E por favor, não vá pensar que isso é uma tática pra que eu não escreva pouquinho. Pois bem sabes, Coração, que não é! E espere aí?! Quem disse que você, Coração, sabe de alguma coisa?! Só sabes porquê eu decidi dividir contigo, antes que me tirasse tudo...
Então agora vá aos tormentos!

quarta-feira, agosto 15, 2007

Amarelo, te quero bem instantaneamente

Um homem pára e me aborda. Vestido de cinza e com uma boina verde, fazia sinal com os olhos de que queria contar-me piadas. Parei e escutei o que ele tinha a me dizer. Como sempre nada, era mais um vendedor, daqueles que só sabem enrolar o cliente, pra depois ir embora reclamando que não vendeu nada. São péssimos os safados! E ainda reclamam.
Saí daquela rua vazia e fui até o ambiente que mais vivo. Geralmente quando sentia vontade de gritar, gritava. De chorar, chorava. De ser, era. Mas aqui as coisas são meio difíceis. São essas paredes brancas que neutralizam tudo. Mas o Sol, em vez de sumir e me deixar aqui no silêncio, criando preto e branco, prefere me ver através do buraquinho da janela. Fico pequenino diante disso...
Não quero me amigalhar com o Sol, não aqui. Nada contra a prepotência dele. Até gosto quando os braços dele me tocam a nuca e ficam fazendo cócegas. Agrada-me saber também, que se não fosse esse sorriso inconstante que ele concede sem querer, não estaria pronto pra surgir e talvez eu até tivesse muito mais do que 15 bilhões de anos.

Se eu desse trela aquele salafrário não haveria fugido dele, moendo minha alma de ódio e de raiva, e não haveria notado que hoje estás um pouco mais alegre que o de costume e que me fizesse abandonar os casacos por mais de duas horas.

terça-feira, agosto 14, 2007

Dia do tempo e dos detalhes

Há uns tempos, dir-se-ia que nós estávamos namorando, risonhos e contentes e que, não poderia ser outra coisa. Há uns dias, estava eu andando solitário, mas em minha companhia, até que vi teu semblante feliz atravessando a esquina e se encostando no poste, que por sinal, era menor que teu corpo. Só ele existia, os resto era miúdo, finito e muito colorido. Preferia a sua luz exagerada que sempre apagava todas as cores possíveis de existir.

Há umas horas, fiz o mesmo caminho de concreto como em todas as manhãs. Foi o sol, aquele gosto amargo de vida logo pela manhã, que me fez cogitar tua presença. Queria muito sentir o gosto amargo que é te ver e poder deixar cair da minha boca um pouco de sutileza, já que isso lhe parece ser tão mais agradável. Já tomasse conhecimento de que nossas conversas, covardes e subliminares, só acontecem de noite e de dia, quando não nos vemos?

Há uns minutos, decidi não achar que tenho algum valor e que nossas pequenas estrelas ainda caminham no céu do dia e da noite, conversando e sendo os amantes que sempre foram.

segunda-feira, agosto 13, 2007

Da cor à lembrança de que estás por perto

Hoje bebi suco de uva, pra sentir que estavas ao meu lado. Sei que tudo com essa cor fica mais belo e suave.
Sentei, atordoado e sozinho, pescando no tom levemente roxo do céu, algumas palavras que se adequassem ao que queria dizer. Mas não encontrei. Encontrei algumas palavras verdes, que ainda sentem vergonha ou então que sabem que ainda é cedo; outras amarelas, prontas pra caírem em teu colo e serem apreciadas; aquelas palavras roxas, estavam machucadas mas continuavam amáveis como eram, já que essa é a cor que te agrada e que faz tudo um pouco mais belo. Meu dia está sendo roxo, pra lembrar que um pouco de sua tez branca ainda vaga em meu rosto e teus lábios, vermelhos por natureza, ainda sopram palavras de arco-íris até os meu ouvidos.
Hoje bebi suco de uva, mas foi só pra lembrar que não consigo te esquecer.

terça-feira, agosto 07, 2007

Amor natural

Os teus olhos por tantas vezes me lembram um mar. Distante e mas tocável. Os teus lábios são grandes fendas silenciosas onde só o ar mais inquieto pode perturbar. Teus cabelos, lindos ramos jogados à mercê da natureza, sujos de terra, prontos para os cuidados do cultivo.
Se fosse possível tornar-te real, serias a flor tropical mais bela em todos os trópicos. Teria o mais belo representante do Zodíaco. Serias completamente única e minha.

Essa pele branca quase transparece tua alma. Posso te ver por ela. Teus gestos, teus dedos, tuas unhas. Uma junção perfeita para a construção de um mundo novo. Um mundo onde não existirá amor. Algo laico, perfeito.

Os oceanos oscilariam entre piscar e chorar, as matas do nada perderiam toda a sua forma e a sedimentação das rochas mudaria o nosso ambiente a cada palavra que fosse dita.

Se fosse possível escolher uma mãe natureza, que acolhe os filhos e os põe no seu colo, eis que te escolheria, já que em teus braços tudo é tão mais leve que quase flutua. Até os corações do homens voam enquanto tentas explanar um pouco sobre tua conturbada existência.

Os teus enfeites, por mais silenciosos e brutos que sejam, são músicas aos ouvidos dos leões, os fazem dormir. Teus passos são terremotos que criam a dança da vida abaixo do chão. Depois de andar, estás parada, olhando para trás, e os homens-animais desse mundo ainda conseguem te amar, por mais laico que esse mundo possa ser.

As ações que reagem quando menos se espera.

"Vale a pena divertir-se um instante com os imbecis, dá-se corda, eles se erguem no ar, enormes e leves como elefantes de borracha, puxa-se a corda e eles voltam, flutuam a baixa altura, aturdidos, estupefatos, dançam a cada sacudidela do barbante, com saltos desajeitados. Mas é preciso mudar constantemente de imbecis, senão é a náusea."
(Jean-Paul Sartre)
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Regresso. Ainda vivo de passado. Fragmentos jogados que mostram evidências de que a vida por ali passou e não há como apagar. Erros e brincadeiras. Parece até um jogo, mas um jogo sem graça, sem sentido. O único sentido não é completar, é preencher. Encher a conta!
Descobri que às vezes os imbecis são ótimos divertimentos, foi Sartre que me ensinou. É preciso se divertir com eles periodicamente porquê eles cansam e se tornam desinteressantes. Não que meu intelecto me permita o título "culto", nem o quero. Mas é que Sartre tinha um bom-senso e às vezes partilha dele comigo.
As coisas soam sempre erradas. Os cálculos sempre devem ser corrigidos. Quem falha? Eis a questão...

Tomara que minhas drogas estejam me esperando alegremente dentro de meu quarto, prontas pra cantar a noite toda a canção do descanso eterno enquanto regresso pra viver de passado.

quinta-feira, agosto 02, 2007

A lentidão da urgência

Há urgência em estar vivo, em estar limpo.
Há sentido no hoje, há motivo na dor
até que seja ela suave.
Os hábitos tão normais, com cheiro de rotina, estão sumindo com o passar dos meses. A comida vai apodrecer na geladeira se algo não acontecer. Não precisa saber o que se conhece por conhecimento. É preciso ação!
É preciso estudar pra ser alguém na vida?
Os negros voltaram pra casa depois da semana festiva e serão mais vermes nas ruas denovo. Os brancos jorram alegria, já que administram o suor dos trabalhadores de corpo e alma. Os coronéis preferem mantê-los no tronco, todos eles. Independentemente de cor. Azul de raiva, vermelho e cansado de se banhar com sangue; verde de nojo, roxo no corpo e preto na alma. Só o branco dos olhos é que pede por paz e por calmaria. Sabe bem que a raiva nunca vai passar.
Eis então, que falam os direitos humanos. E clamam por ética, moral, princípios. Esperam a sujeira por algum brilho prazeroso nos olhos.

O ciclo continua. Indo e vindo. Matando e roubando. Enquanto choramos por perdão o caos exaspera gritos de horror.

quarta-feira, agosto 01, 2007

Frustração

Descobri aquele objeto tão desumano que soava quase bruto, quase inanimado, mas senti que algo respirava dentro daquilo.
Tão depressa começou a roer os lados do próprio corpo por medo de se entregar ao seus prazeres vegetativos e completamente frios. Era um sádico que via a sua redenção banhada em sangue. Sangue esse, que só ele via com seus olhos cor de mel.
Ficou subentendido que estava deitado no chão chorando, mas estava realmente esperando salvação...


Precisa parar com isto, e logo, antes que a fama de bom o torne mau e arrogante outra vez. Tornando-o mais impotente do que já era e mais inconsciente do que é. O medo que escorre pelos cabelos raspados dele todas as noites, molha a cama e o deixa gelado, mórbido. Desfaz todo o calor humano que havia naquele corpo e o enche de uma amarga ternura com vista para um abismo fundo.
Cheira o odor suave que suas pernas exalam, mas nem sabe que suas pernas apodreceram depois de andar pelos caminhos rotineiros que traçou. E o ego tanto arde sem saber.
Precisa parar de ser o que não é e ferver de loucura antes de falar ao coração aquilo que sua alma repudia.

sexta-feira, julho 27, 2007

Sujeito oculto


Desce do ônibus, sai da calçada, pisa no meio-fio. Apenas estava seguindo a rotina que tinha estabelecido. O esgoto era sua boca e a boca o esgoto; com toda aquela fumaça que não tinha explicação. Não era raiva nem frio, era algo oculto.

Atravessa a rua, sente a face gelada com o sopro dos carros que passam depressa naquele espaço estreito, onde não caberiam dois corpos. As mãos queimavam, os lábios humedeciam-se a todo instante.

Volta um pouco, entra no ônibus, desce o morro e se sente mais retrógrado do que em outrora. Porém é um regresso contínuo, que só um pode entender, mesmo desentendido pelos seus próprios princípios.

Chegou a plataforma de embarque, as quais não confia nenhum pouco, prefere ler os ônibus porquê é mais seguro. E insegurança não o falta, já que vivemos num mundo de incerteza.

Não pode falar com a própria boca, sempre precisa de um narrador.

Teve medo de ver o escuro, de ouvir os gatos e de ser o que era todos os dias. Parecia até que algo novo ia acontecer nesse dia.

Deitou-se na cama, olhou a hora no seus relógios desordenados para que possa acordar todos os dias. Fechou os olhos que estavam abertos a pouco e (re)adormeceu.

A luz estava acesa, o rádio ligado e, os incensos eram acesos na cozinha, já que não conhecia os palitos de fósforo naquela casa. A bolsa estava caída no chão e a sacolinha de papel esperava deitada e tranquila que o dia voltasse pra que ela se sentisse um pouco mais animada, mesmo não sentindo.

Tirou o tênis e conseguiu sentir aquele chão gelado como o corpo que acabara de ser despido da cintura pra cima; era como se uma pedra de gelo descesse até os pés. Tirou as meias e a sensibilidade se escondeu no mesmo instante em que saiu do tapete.


...


Então pensou que era hora de progredir e agora se encontra tecendo os fatos que viveu e que inventou. Impressiona-se às vezes por causa da sua falta de termos e de verbos. Não consegue acreditar que quem lê livros velhos não tenha um bom vocábulo. A vontade de buscar mais alguma coisa sumiu, o sujeito ocultou-se denovo e não sabe se ainda quer voltar.

quinta-feira, julho 26, 2007

A espera

A caixa sonora, o livro debruçado sobre a mesa, triste e sólido; o rádio com o volume reduzido, o chiado da música, os olhos fechados; tudo escuro.
Lembrava até um momento de vazio, de solidão. Um momento rude, gélido e desprevenido. Qualquer forma de dor poderia atingir o corpo, afinal de contas, só conseguia pensar em uma coisa: o depois.
Esperava que depois de nascer denovo, tudo fosse melhor, que as coisas crescessem mais rápido, que o mundo não girasse e que a luz não sumisse jamais. Que ficasse eternamente ali, aquecendo e iluminando.
Os ponteiros estavam criando uma nova melodia a cada instante, uma nova forma a cada passo, um novo desenho que tentava fazer. Só que sem sucesso. O desenho nunca acaba nos ponteiros.
O tempo que sempre trás consigo a angústia, trazia naquele momento a incerteza; incerteza de que os seus desejos eram exatos.
O corpo jogado nos panos esperava por um momento inerte que fosse eterno. Só não esperava morrer.

A noite veio e as vozes se calaram já que não podiam estar mais ali. Os olhos não queriam mais abrir e a sua voz estava sumindo. O sangue jorrava dentro de seu peito mas não sabia como dizer que era chegada a hora do último abraço. Não podia dizer.
Os dentes quebrados, a língua aprisionada pelos lábios que tanto falavam, não podia lamber o toque suave que o amor lhe proporcionava em alguns períodos.
A chuva de lágrimas que invadiam os olhos cessara e agora só o que restava a ele, era tentar abrí-los e amenizar a angústia de não ver mais o resto do mundo que acolhia com suspiros suaves todos aqueles que o habitam.

Depois da chuva, nada mais existia... Pra sempre.

terça-feira, julho 24, 2007

Contexto ambíguo

Um olhar tão penetrante, uma fonte momentânea de inspiração. Tuas ações inocentes desaceleram meu coração, quase me ensurdecem.


Teus alertas assustadores, tuas mãos tão grandes, tua face sempre tão molhada. Parece até que ainda não saístes da rua.


Teus ouvidos são tão aguçados que entendem meus pequenos balbucios e meus fracos ruídos.


Isso deve ser instinto, não sei...


Tão presa por outros, tão fraca, impossibilitada, vives à mercê das ofertas.


O carinho renasce todas as manhãs, mesmo que o Sol não venha.


A tua guarda não é mais que um grande favor, e a tua vida é que atribuo grande valor...


Sabe, perdi a folha onde te escrevi, guardei um pouco em mim e sei que o resto está em ti.

quinta-feira, julho 19, 2007

À pessoas que ainda não conheci

Ele podia sentir, mesmo que na distância, a evidência do amor mostrado por ela. Ela o sabia com os olhos e com os lábios. Ele a palpava na alma, usando a íris. Os braços e mãos não se entrelaçavam, porém os lábios, ah!, os lábios buscavam juntos palavras pra expressar tanto amor. Amor que não cabia dentro do ciúme. Amor que para as palavras parece suspeita.
Os dois corpos, ali, juntos, vestidos e presentes, não aparentavam uma necessidade única de se encontrar. Queriam calor, o calor do que os mantém vivos, o calor da alma, se é que ele existe.
A dança, os movimentos e os olhares os envolviam cada vez mais. O toque rápido e o beijo mostravam cada vez mais a busca de uma palavra--chave que libertasse o amor.
Mesmo não precisando, achavam. E era amor.

Espera por um final...

Estamos cansados de ódio. Estamos, estamos e estamos. Por isso estamos assim. Com raiva. Porque estamos. Estamos falando, estamos argumentando, pensando. Estamos. Por mais que estejamos dispostos, continuamos. Parados, pensando. Estou bem, logo não interessa mais ninguém. Não estamos revoltados. Estamos cansados. Estamos esperando, esperando e esperando por um ponto final. Um ponto final. Uma solução, uma saída. Qualquer coisa.
Estamos esperando o amor florescer denovo. A conversa desabrochar denovo. Sem medo. Oh, não! Estamos cansados, com sono pra abrir os olhos agora. Falamos de guerra e alguns fabricam armas. Falamos da vida e outros se entregam à morte. Estamos sentados, mas estamos correndo. Fugindo disso tudo. Acomodando? Resignando? Sonhando?
Estamos prestes a qualquer coisa, qualquer grito silencioso. Estamos boicotando, estamos em silêncio. Ninguém vê. Ninguém precisa saber que estamos estáticos, analisando, vendo e protestando. Estamos do lado.

Falamos, falamos e falamos.

terça-feira, julho 17, 2007

Retas

"A soma das grades, das portas, dos detalhes, das linhas, das aerodinâmicas, das ondas, das mãos, das almas, das ruas, dos tubos e dos esconderijos lá fora, robotizam-me.
Viver por...
Buscar por...
Comer por...
Sair por...
Somar por...

Não existe um sentido exato. Exatidão que me tira de mim. Que me joga longe,longe... Me perdi. Não quero me encontrar.
Estou ficando velho...Isso é grave. Minhas mãos não mais tão retas. Minhas costas tão mais curvas. Meus pequenos segredos são mais piadas na cota de risos gratuitos.
A vida... Por si só... Já basta...?"

Por pensamentos perdidos na tarde

É... Pode até ser que seja verdade, mas não. Eu não acredito, não.
Bem que eu te disse que essa tremedeira toda, essa vontade de gritar, essa nostalgia, isso tudo ia te fazer um bem... Que podia soar a amor. Mas não. Eu não acredito, não!
Às vezes parece que exclamar é estar furioso, trovejando palavras de exaltação ou até mesmo um balbucio choroso. Mas não. Eu acredito que exclamar seja suspirar devagar, respirar fundo, encher os pulmões e declarar guerra.
Perdes a tua rotina, encontro meu caminho. Essa é a verdade, mas não. Eu não acredito, não.
E também não acredito que possa ser real um desejo tão pequeno e vazio. Parece até que meus pés estão na corda-bamba... Estáticos, mas prontos para cair. Prontos para uma ascensão sem lógica.
Eu quero viver no fogo, nadar com os tubarões, jogar flores no vento,quebrar a linha de pano, fumar os ares e jorrar o sangue da liberdade.
Eu acredito... No quê? Em quê? Milagres?!

Ah, cavalo branco... Inspira risada e risos. Sátiras maravilhosas são feitas de nossas vidas e histórias e nem sabemos. Aos leigos, nada mais que um preconceito social baseado numa crença ou num livro.
Bem sabes que não...
Não o és.

segunda-feira, julho 16, 2007

Euforia estendida

Trancado dentro da intensidade daquele olhar e vislumbrado com o movimento das mãos colocadas com força para o alto, sinto que és aquilo que precisava ver para ter mais energia. As luzes te alteravam a cada segundo, a tua loucura me fazia mais feliz. O barulho, a violência, a cantoria, tudo exalava liberdade. A pura liberdade que existia. A mistura fina das ideologias mais variadas nos trouxe pra onde estamos. Num movimento inerte e puro, sem pretensão nenhuma de crescer fora. Só de existir.
É um amor mascarado que não se vê, não se toca, não se respira, não se muda nunca dos corações. Eu não sou Jesus nem qualquer outro tipo de revolucionário, mas estou pronto pra bagunçar a minha mente. Pra mudar o meu sistema, pra me embalar na tua manta e me deixar ser sem depender de mim pra ser por ti. Somos por nós, por todos, por uns e por outros.
Que tal amarmos sem medida? Que tal forjarmos um amor que não existe? Quem topa dar amor? Quem quer amar sem saber?
Eu amo todos vocês, eu preciso de todos vocês.. Minhas pernas tremem ao pensar nisso. Minha solidão me gratifica tanto porquê sei da vossa existência e posso contemplar as imagens de longe sem precisar tocar.
O som grave da companhia é forte, porém a gravidade da solidão é tão mais forte que enlouquece os maus e fortalece os bons.. Os ruins? São tão bons que estragam. Os bons? Só precisam piorar...

*I'm not Jesus - Apocalyptica feat. Corey Taylor*

sexta-feira, julho 13, 2007

Hora de trabalhar

Entra e olha pro lado, sente a solidão
Espanta os pássaros, destrói a beleza
Que um dia restou do seu coração.
Foi máquina direto ao muro,
Saudou um coração de plástico
Como se fosse puro.
Não precisa mais saber de mágica,
Não precisa mais saber da filha.
O alimento na marmita,
Arroz com feijão
Com gosto do cigarro
Da esposa Rita.
Se reúnem os amigos
Pra contar mentiras
E continuar a empreitada.
Sem o auxílio de um carro
Trabalha todos os dias com o mesmo alívio,
Cuspindo no mesmo lugar
O mesmo catarro...

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Me arrisco a indicar "O Rancho da Goiabada" de Elis Regina. Achei uma linda canção...

terça-feira, julho 10, 2007

Contudo, saio de mim e pouso ao lado. Ao lado do que mais me faz amar. Amor que me eleva ao nada.Eu só queria te contar que eu fui lá fora, e vi a vida arder sem explicação, sem razão. Meus pára-quedas me fazem cair a todo instante. Não tem explicação pra falar de amor a essas horas.
Enfim, estou em mim à toa. Eu te quero há um tempo. Eu te vejo presa, colada no teu próprio rosto, acuada por nada.

As flores que se cultivam no chão, não consentem com a solidão da manhã nem com o calor vespertino que é uma inspiração libertina dos nossos atos inconsequentes. Palavras difíceis, olhares escondidos, pessoas doentes. Sabes bem que eu não sei a explicação disso.

Aliás, se eu tivesse um mapa do meu nada que te levasse até a marca do tesouro, o que faria? Risos muito doces para uma alma como a tua.
O tesouro escondido és tu, tudo. Aquela criatura saiu a noite à procura para querer ser livre. Se prendeu, se esqueceu.

Será que ela evolui?

segunda-feira, julho 09, 2007

A caminhada até a plataforma de sempre hoje fora cansativa para ele. Sentou-se, olhou as placas de anúncios que sempre olham para ele na esperança por um consumidor a mais. Olhou as pessoas, olhou as roupas que as mistificam enquanto as revelam como personalidade. Ele trocava cada peça por um sentimento, cada gesto por uma característica. Recordava-se dos tempos em que não saía sozinho de casa. Quase chorava ao pensar na companhia que ele fazia a ele mesmo, na mesma espera.

Olhou mais perto de si e viu uma mulher. Aquelas que são elegantes até de manhã cedo, aquelas que guardam brilho e cor nas menores curvas. O seu cabelo ajeitado por trás das orelhas, longos e ondulados, o faziam viajar na criação de novos desenhos e novas texturas, as quais não podia tocar. Sua imensa vontade de tocar aqueles ombros e dizer que estava fazendo um lindo dia não podia se materializar. As pessoas costumam se assustar com algumas reações. Mas ele podia sentir as palavras de concordância saindo da boca. Arriscaria ou ficaria ali, ao lado, se penitenciando por não falar?

Não o disse e nem se arrependia por não ter dito. Era um covarde convicto. Sabia que falar e fazer era difícil, então pensava. Quase um filósofo prestes a alcançar sua máxima do pensamento, mas não chegava a nada. Pela manhã via, além de pessoas e máquinas, o lindo sol que esboçava linda luz por trás das nuvens que pareciam montanhas gigantes e a civilização abaixo, sempre tão pequenina e insignificante aos cuidados da luz. As manhãs cinzentas não arrebatavam-no à outra era.

As placas que ele via pela rua transformavam tudo em Eterno e tudo em realidade. Sempre saciando um desejo insaciável, esse desejo de eternizar, de sonhar. Essas placas mudam, voltam, mudam.Tudo pra eternizar uns momentos comprados, uns sonhos que virão realidade com a mão no bolso. Ele viu que não precisava sair de casa para ser eterno e feliz. Decidiu então, voltar ao primórdio da consciência ao modo de tentar ser gente. Fazia tudo muito devagar, mas não o queria assim. Sentia todos os dias o vento, mas não o via. E assim era com a determinação dele, sentia ela todos os dias, mas não a via.Não a via projetada em nenhum canto mas ela o motivava de alguma forma. O motivava a aprender por si só. A pernoitar no pensamento e na arte de ler, caminhar no nada e não dormir. Porque se dormisse, jamais iria acordar.

quinta-feira, julho 05, 2007

Criando desejos

Realiza-se lá no fundo hoje o que precisava e o que esperava. As formigas andando nos cabelos doces, com suas finas patas, mostram que existe um bom gosto. O cão lambe os sapatos, o tornozelo, as mãos, as patas, cheira as orelhas. O sol exerce seu papel de estrela guardiã, ao menos nos seu turno, vigiando constantemente quem ilumina. Aqueceu corpo e alma que envelhecem, descreveu traços sombrios nos quadrados pisados no chão. O portão de ferro não bate mais, está fechado. A portão de ferro não mexe mais, está descontrolado. A seta que acompanha o ritmo dos apertos que são uma manifestação expressiva, é uma fiel escudeira, que segue o caminho das letras, independentemente do que elas digam.
Foi o bem que se instaurou nos corpos deitados, com suas cabeças uma sobre a outra, acariciando e cheirando e sentindo, tudo ao mesmo tempo.
Criando, desejando e querendo. Querendo ver denovo um cometa logo pela manhã. Desejando mais um pouco de alma e virtude. Criando um sonho que pro agora é distante. Usava frases que não cabem em nenhum papel, só na cabeça. Dizia coisas que não ficavam na memória, só no papel e na tela. Fazia rascunhos com as lembranças que estão arquivadas em qualquer lugar por aí.
É fácil entender e não precisa nem se entregar, só ler.

quarta-feira, julho 04, 2007

Ele, tão poderoso Ele

Tão determinado pra não poder sair às ruas. É pouco infiel com a paixão de Cristo. Ele fala as chagas da alma como se fossem seus prazeres. Ele beija os estigmas com tanto amor que o sangue não tem gosto de sangue. É vinho. É néctar divino. Vem do filho amado, do redentor consagrado. O ateísmo dele não se faz ao Filho, só ao Pai. Ao pai que o nega palavras, quaisquer que sejam. Ele odeia casas cheias, não pisa nas cabeças e não olha para os lados. Só olha pra baixo. Ele às vezes não tem rosto.
A melodia que ele ouve, vem do vento. O reflexo no espelho configura outro ser. Não ele. Ele se entrega de braços abertos à solidão. Lê Alváres de Azevedo e Lord Byron com o objetivo de se tornar mais antropófago que antes. O difunto para ele não interessa, é carne morta. Os corpos que cultiva, são imagens do outro lado. A loucura do Pai em criar os filhos, foi longe demais. Ele não aguenta receber morte sem motivos.
A cota do espaço sagrado está escassa ultimamente. Os filhos não teram tanto dinheiro assim. O dízimo já não serve mais, segundo Ele. Precisamos de mais. Então que doem tudo.
Ele se alimenta de alma e de carne viva. Ele olha para os lados e ouve o som do escuro, o som do silêncio. Ele cria periodicamente enquanto mata com rapidez e pique. Ele cansa de ver a mesma coisa todo dia e viaja até onde conseguir. Ele explora, com medo, o que for possível. Ele se repete muito. Ele não se contradiz, imagina. Ele não sabe mais amar ninguém. Só o ego...
As conclusões Ele tirou antes de acontecer. Ele sabe tudo. Ele controla tudo. Ele pontilha tudo. Ele é nada pra uns. Ele é tudo pra alguns. Ele é importante, porém vago, pra milhões.
Os filhos... ah,os filhos! O que serão eles, se não filhos?
E o Filho, ressucitaria denovo pra salvar os filhos?

terça-feira, julho 03, 2007

Quero falar sobre as soluções. As soluções que talvez se encontram escondidas na memória, na memória de misérias. Na dor e no sofrimento de uma visão de pequenos corpos, com pequenos gritos, mostrando corações quebrados. Como é possível esperar o arrepio sem provocar a sensação, sem buscar a emoção?
Eu falo seu nome, por conforto, por espera de uma solução. Pela espera do fim de um coração eu estou esperando..
Os meus reflexos estão se multiplicando, e eu não me encontro mais.
Estou esperando uma nova solução para o fim de um coração.

segunda-feira, julho 02, 2007

O bar da libertinagem

Depois de ver o que havia dito e o que tinha pensado, foi parar na frente de um pequeno boteco, daqueles onde ficam os libertinos mais sujos e mais promíscuos. Andou, chegou perto do mais sujo, do menos puro, do impróprio. Impróprio para o momento, diga-se de passagem. Olhar para aqueles olhos que quando embriagados pareciam ver melhor e tocar nas mãos calejadas que agora pareciam estar mais suaves por causa do banho de álcool que levaram, a deixavam mais impressionada. Não sabia quem amava mais. Se a ela mesma ou tentava amá-lo sem medidas. As medidas que ela traçava não consentiam com as formas que ele esboçava.

Os dedos enlaçados, pareciam criar poucos traços abstratos que davam abertura para criação de novas figuras na paisagem cor-de-pele. Enquanto naquela sensação indiferente de sonho, ou de devaneio como os gênios costumam tratar, não sentiam sequer o ar. Ela sabia que ele estava tomado por um elemento mais forte que o álcool e mais corrosivo que o tabaco. Ela sabia que ele a amava.

Ele nem imaginava o que era amar. Era um rico inocente. Um libertino. Um pobre promíscuo que não pensava em mais nada a não ser sexo. As pernas já fortes pelas corridas e caminhadas, não o mostravam fortes. Mas ele queria boas pernas para atrair ela. E ela com certeza o queria assim.

Deram goles de alegria. Andaram nas ruas que não foram da amargura. Saíram do bar da libertinagem para que fossem para o quarto dos vagabundos. Lá absorveram corpo e alma. Entregaram-se ao nada. Morreram de tristeza. Não sabendo que era sempre amor.

sexta-feira, junho 29, 2007

A forma da alma esboçada no espelho

Num quarto. Numa saída. Num refúgio. Numa vida. Numa vida.
A imagem que se reflete no espelho, talvez não seja minha. A desfiguração da minha visão me deixar ver só o que eu supostamente não quero. O que eu quero, não sei.
O reflexo ali, diante de mim mesmo, possivelmente seja eu. As analogias previstas diante do espelho não estão levando meu ego a nenhuma elevação narcisista. Meu ego por vontade própria é Narciso. Narciso por amor - próprio? Não. Narciso por cultura? Jamais. Narciso por quê? Porque sim, oras.

Mas a visão então ofuscada não é por culpa desse complexo já antigo e desgastado. É por culpa do objeto que se reflete no espelho. Eu.
A forma do corpo no espelho, não é a minha. A materialização da alma se fez instantânea no instante que senti a força do pensamento eclodir e exteriorizar-se sem medo algum. A alma se esboça pelo corpo em frente ao espelho. E já não se conhece mais o corpo, que muda constantemente.

Reconheço só a alma. Que sozinha tem sua única importância e função, que é comer e manter vivo o corpo para que não apodreça.
Depois de muitos erros de figuração, a alma dá um passo.
E o esboço no espelho deixa de existir. Avante, alma. Avante, corpo, que só não vive. Avante luz, que ilumina o caminho dos desalmados. Avante, escuridão, que escurece o brilho do alto ego. Abaixo, fome que estraçalha a alma. Abaixo, corpo que se auto-flagela em pensar.

Narciso, serás meu companheiro, enquanto na vida se fazer o vidro e o cristal. Será meu companheiro "esboçal" e tens em mim um corpo tranquilo e uma alma confusa. Espelho, tem em ti um ente mitológico, uma criatura que até hoje se afunda na própria vaidade. Tens um amigo que transmite a alma e que desconfigura a carne.
Pablo Picasso

terça-feira, junho 26, 2007

Atraso

Não vi nada que me causasse tanta impressão. O meu atraso não me levou a nenhum outro lugar. Meu encontro por acaso com outros, foi por acaso. Minha partida solitária, foi só. Meu dia recomeçara pra nada. Pra executar todas as operações rotineiras que fiz ontem e repito agora.
Algumas com prazer, outras por dever. Faço. Uma letra possessiva se repete nas linhas e entrelinhas do meu caminho ainda prevísivel, só não sei por quanto tempo. Ritmos distintos, trocas constantes, mudanças de setores. Tudo, tudo ao mesmo instante.

Meu último passo foi um presságio de inércia. Meu último suspiro expressou a espera; espera pelo término. Espera que chega ao seu segundo estágio, enquanto o tempo passa. Meu coração, meu vasto e solitário coração não está doendo, nem sentindo. Não me falta o que eu não quero. O que eu quero me falta, mas o material não é mais tão necessário como antes.

Um atraso que me conturbara muito. Dois minutos pra surgir nervosismo. Descontrole. Temor. Joelhos trêmulos e outras coisas mais.
Mas dois minutos me trouxeram o encontro do acaso, que não significou mais do que um encontro social. Uma parte do convívio.

Assim que fujo, me busco. Assim que busco, me encontro. Quando me encontro, me canso. Mas esse cansaço desproporcional mostra minha constante vida, que por si só, já basta.

segunda-feira, junho 25, 2007

Estou sem inspiração

Até que não sei o que escrever agora.
Mas talvez depois me venha alguma frase desencaixada à cabeça esperando por ordem e significado, que é o que mais nela importa.
Bem, pra falar a verdade, não escrevo nada que signifique algo pra alguém, a não ser pra eu mesmo. Não nasci conjugando os verbos ou falando certo, que nada, sempre escrevi errado. Nas minhas provas de português, o máximo que alcançara fora cinco pontos. Cinco pontos! O que são cinco pontos? É a vergonha, a grande vergonha pra um rapaz que tenta escrever alguma coisa. Uma grande frustração foi quando tirei zero. Mas não estou aqui pra falar disso. Estou aqui agora pra falar de inspiração, que é o que me falta há cinco dias.
Há cinco dias que a estrada se faz mais longa e que meus passos, por mais acelerados que sejam, parecem que não chegam nunca em lugar nenhum. Então que sejam bem vindos os fantasmas que virão, com certeza, encher a minha paciência durante as noites que vão se passar.
As ações disturbadas de outra hora, ficam pra agora. Pra aqui, já que o caderno às vezes me irrita. A caneta não quer funcionar quando quero escrever. Parece até que o Diabo chama nessas horas. Diabo...
Representação interessante para o que chamamos de mal. Diabo...
Deus... nome que não causa nenhuma impressão. Poucos prestam atenção quando se fala em Deus, mas quando se fala no Diabo, os olhares distantes querem chegar mais perto pra vez se o que assusta realmente repulsa. Ou apenas pra dizer que aquilo realmente não vale nada. São emoções falsas...

Se teu nome não estiver aqui depois, talvez foi porque não soubestes procurá-lo com a calma necessária. Até então, estava escrevendo um conto sobre um cavaleiro e uma donzela mas esses contos são tão babões que me irritam em muitas vezes. Acho que estes belos contos de amor eu deixo ao encargo de Shakespeare, onde quer que ele esteja. Escrever sobre a rotina fica com o Veríssimo. Escrever sobre outro mundo, por favor Tolkien, habilite-se. Mas escrever sobre o que eu quero, deixo aos meus cuidados. Escrever sobre minha falta de inspiração está me rendendo um monte de letras, que penso até em mudar o título. Mas isso não teria graça, porque foi por ele que eu comecei a escrever e a sair do desfecho desse artigo que nada diz.

Estou sem inspiração para o ensaio hoje. Hoje eu não quero planejar. Vou ficar aqui ouvindo a minha trilha sonora preferida, com minhas canções gritadas e dançantes que me fazem viajar por longos instantes.
E o dia segue- até quando, "só Deus sabe".

quinta-feira, junho 21, 2007

Olhar distante


Com o vitral fechado, sou iluminado pela luz externa e ambiente. A artificialidade, nesses casos, ainda não aprendeu e me agradar. De tanto criar, criar e criar, cai em esquecimento, cai e morre. E se não morrer é porque já foi esquecida há muito tempo.
Não consigo crer que o último do meu olhar distante se encerra em nada, se encerra em escrita arquivada, em pensamento frustrante, em idéia desconcertante.
Até o pensar está lamacento e pegajoso, mas não o quero assim. Mais flexibilidade seria necessário. Mas na minha atividade imaginária, não dá pra alcançar o término dos exercícios benéficos.
Estou conscinte de mim mesmo e de meu complexo de Peter Pan. Com o olhar distante, mas tão perto, fico matutando a respeito de onde encaixar a frase, o anúncio. Por fim, ele se repete. Isso me enfraquece por dentro.
Vou fazer fogo pra, sei lá, queimar neurônios porque a informação vaga que capto me irrita e na hora da busca aprofundada, algo acontece e me impede...

Minha personalidade talvez fique estampada no meu casaco verde que provém de morte, ou então nas teclas deste teclado, que aperto com uma paciência que soa a preguiça, quase inércia. Acho que nessa formulação toda de frases e palavras, acabo por me expressar dramaticamente, coisa que não quero. Se eu pudesse, iria rir o dia todo, mas só porque faz bem à saúde... Bem, mas que se dane minha saúde.

Vou voltar a ser distante no olhar para ver o que vem de lá pra cá, e daqui praí.

à Cláudia Iara Vetter

Não posso deixar de ser sincero agora que me veio a cabeça inspiração.



Com meus olhos e mãos, descobri o aconchego de tuas palavras. E elas me mostram um vasto campo de idéias, me modelam com o tempo, me altera com o nome, me leva ao nirvana...

Descobri com minhas mãos, que preciso de um esforço pra tirar a minha lama dos olhos e continuar ali, com vento frio secando eles a medida que o tempo passa e que me delício mais e mais...

Vi com meus olhos, a beleza estrutural de tua forma oculta por trás deste lugar. Vi a forma da palavra- no sentido figurado. Literalizei o que havia pra ser generalizado.

Toda vez que te leio, sinto teu toque lento, ingênuo e doce.

De uma sensibilidade tão plena e às vezes, de uma dor tão profunda. Que de tal, só se sai o amor.




Chega!

Chega de caos, o mundo chegou. A hora já foi, o mundo acabou!
Começa o inferno, colégio interno. O tempo se foi, o fim começou!
Termina a paz, reina a violência. Não dá mais pra aguentar a própria existência.
Explora o que há. Explora o que dá.
A ganância devora, o mundo chora.
Se chora, não vive. Se corroeu!
Morreeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeu!

quarta-feira, junho 20, 2007

Hoje nada domina

Hoje nada me pára!
Nem tuas mentiras, nem todas aquelas caras.
Hoje nada me trai!
Nem tua vizinha, nem o santo Pai.
Hoje nada me atinge!
Nem a estatueta, nem a esfinge.
Hoje nada me cria!
Nem Duchamp, nem nenhum outro dadaísta.
Hoje nada me canta!
Nem o rock com sua bela não-dança.
Hoje nada me escuta!
Nem eu, nem a chuva.

...

Hoje domina o agora do instante que se passou há algum tempo.

Estou elétrico

Estou elétrico, sinto o positivo na minha veia e o negativo na minha cabeça.
Não quero falar de metáforas, então vou falar aonde estou. Estou aqui. Aqui é fácil de enxergar, vejo tudo. Vejo tudo e não digo. Não digo pra não sentir. Não sinto por medo. Por medo sou covarde. Sou covarde por amor. Por amor eu mato. Eu mato o que for preciso. Preciso de coragem. Coragem é o que falta no coração do sincero. Sincero sou ao dizer isso. Isso que não me corrói. Não me corrói por que não uso códigos. Códigos são por demasiado complicados. Complicados são os olhos que me olham com indiferença. Indiferença essa que me faz bem. Bem esse que não me dói. Não me dói porque não deixei doer. Doer seria submissão demais. Demais pra uma alma só. Só com o tempo vou entender o que estou dizendo. Estou dizendo bobagens. Bobagens que não paro de repetir. De repetir no final e no começo. No começo não repete. Não repete no final. No final estou elétrico.

terça-feira, junho 19, 2007

Conto que não foi antes

Antes não pude contar, porque o sol estava me abraçando e aquilo ofuscava o brilho das palavras. A rima dançante da música ao fundo está me fazendo resgatar mais uma vez, o sentido das palavras e a desordem que elas sempre seguem. A seguir, talvez, virá um cachorro de oito patas e seis chifres, dizendo o que devemos ou não fazer. Logo atrás, um gato de olhos flamejantes, de um amarelo nunca visto antes, e com uma orelha por sobre a cabeça, orientando o cão no que dirá.

O abraço do sol realmente enlouquece, a música constante não me agradece. Os artistas não apertam minhas mãos e muitos menos agradecem. Muito pelo contrário, ficam fazendo barulho enquanto se aproveitam de um silêncio não existente.

Homens precisam de animais que sigam a mesma forma que eles. O conto que não foi antes, foi pro canto, pra que agora surja esse dizer maldito. Homens precisam de sol que os abrace, que os aqueça e que os conserve no calor que degrada. E não de mulheres que os matam durante o sexo às escuras. (Risos), (risos), (risos) são as únicas que sobram. Mulheres precisam de homens que sejam animais como elas. Para que se completem. Pronto! Problema resolvido. Somos animais e o sol não nos abraça; só nos aquece.

O conto que não foi antes, foi mal dito agora. Pra que talvez me seja bendito depois, na hora de rir um pouco de mim mesmo.

.ocuoL

Cais da solidão em abundância.
A vida e o destino jogados ao mar da esperança.
As fotos já não mais dizem nada.
A fala de quatro linhas está encerrada.

segunda-feira, junho 18, 2007

Hoje é poesia

Rimada em versinhos subliminares, tuas palavras hoje são poesia. Até as poucas falas e as gargalhadas sem motivo são poesia. Mas só hoje.

{Vou confundir a ordem das margens para que eu seja mais feliz enquanto a compreensão é demorada e tola. Farei de meu melhor personagem o pior dramaturgo}

A canção confusa acompanha teu ritmo frenético e irônico, que soa como poesia. Hoje é poesia, amanhã nostalgia.

{O poeta, nobre poeta, viajou pra longe, pra além da memória. Pra depois do arco-íris, pra não ser descoberto. O admirador, escrivão, sumiu pensando que o amigo tinha fugido em busca de novas inspirações.}


Te digo que posso ser agora o que não serei depois. Afirmo em público que não tenho nada a perder. A não ser que ganhei algo de alto valor e não sei ainda. A não ser que minha derradeira consciência esteja me castigando e eu não saiba. Mas isso só pode ser impossível.


Hoje eu vim falar de prontidão, de vigília e de paixão. Não quero saber de contos ou de confusão. Hoje a poesia é o remédio do coração. No desabrochar desse sorriso que estou vendo aqui dentro, sei o quanto me rendo diante de teu seio, aclamado e venerado seio de segurança, onde faço porto de espera, sem que seja seguro.

Pra falar a verdade, hoje era pra ser poesia.

{Amanhã, na busca, eu falo de contos, porque hoje ele falou de poesia}


Algo está me proibindo de ser poeta. Será a neurose? A saudade?


Algo não lhe faz poetiza. Será a verdade? A nostalgia?
Cansei de dizer que tu és hoje poesia.

sexta-feira, junho 15, 2007

Por acaso, no caso de nos toparmos...


Passeio de volta pra casa, todos fazem. Mas nem todos o fazem com prazer. Há tempos que o faço com gosto. Há tempos que tapiei as costas de outro e trouxe à tona a conversa sem entendimento e os assuntos constrangedores e de diferentes opiniões. E por acaso, no caso de nos toparmos denovo, finja que não me conhece, porque quero te perguntar mais uma vez tudo o que já havia dito em outrora.



Quero ver teus lábios se moverem e pensar, "Nossa, que jeito esquisito de se falar", e olhar pra tua face de desprezo em relação ao que lhe parece estranho e grotesco. Se por um acaso, nos não nos toparmos, meus contos futuros não tem mais razão de ser. Porque quando inspirado, escrevo mal. E quando mal escrevo, é porque bem te quero.

Te salvar no aconchego da minha personalidade, foi díficil. E ainda achamos estranho o mundo imperfeito em que habitamos.

As milhões de estrelas que pairam no céu durante as noites de poucas nuvens, não se comparam ao brilho de teus olhos quando vejo teu semblante feliz e despreocupado. Já tua aflição, me aflinge, mesmo não parecendo que eu seja tão leal ou fiel como fora outrora.



Se por um acaso nos toparmos, não esqueça de me convidar pra tomar um café, ou comer um livro. Não me acanho mais perto de ti. Não tive medo na primeira hora, por que o teria agora?



Por acaso, no caso de nos toparmos, lembre-se de não me conhecer.

quinta-feira, junho 14, 2007

O não-sentido hoje, é pra você



Olhando pra figuras distorcidas em suas formas originais, presas nas paredes, figuro-as de modo que se movam. De faces escondidas, vejo os olhos que me seguem. Hoje escrevo pra você, meu modo preferido de tratamento, porque o tu fica pra depois. Fica no papinho de meio-fio, na risada frouxa, ou ainda, no meu pensamento de proibição.

Estou me proibindo neste exato momento de pensar em ver você, ou de pensar em encerrar o nosso caso que ainda não começou. Chegam turbilhões de risadas na boca agora mesmo. Sua face me faz lembrar do sorriso que você me deu.

As folhas, secas folhas do outono, já estão terminando de cair, e o resguardo do inverno virá austero. Farei o mesmo. Fico de prontidão aos meus passos, mas não aos meus cuidados em relação a você.

A minhoca Druba


Era uma vez uma minhoca que se chamava Druba.
Druba era muito feliz. Druba ria.
Druba corria pelo subsolo. Druba até amava o mundo.
Então, vieram os homens maus e jogaram druba na superfície do deserto. Druba ficou triste. Druba quis morrer.
Mas Druba cantou. Druba não queria morrer. Druba se tornou criança denovo. E criança sábia.
Druba foi ela sempre. Dubra secou.
Os homens maus destruíram a casa de Druba, e mataram a família de Druba. Mas Druba, sobreviveu.
Druba mais ainda, agora, entristeceu. Druba não aguentou...
E morreu.

quarta-feira, junho 13, 2007

Via

Te vejo passando na estradinha curta, estreita e cheia de pessoas. Chamam ela de via; via pública, se não me engano.
Há dias que troquei a minha primeira via da carteira de motorista, e há horas que não te via. Tua presença distante, está configurando, agora mesmo na minha mente, uma sensação conturbada. Uma presença imaginária. Uma situação, idade, século, hora! Tudo imaginário.

Te vejo entrando na casa de aviamentos, te vejo saindo toda avoada. Então o vento que soprou com força até derrubar suas coisas naquela estreita via, e ninguém te ajudou. Pelo contrário, pisaram nos seus aviamentos e nem te olharam a face. Enquanto vias aquilo pavorosa.

Mas eu!, eu te olho. De longe, como já disse em outra situação. Em outra estação. Em outra Terra. Em outra pessoa. Em outra Via Láctea


Beijo, se cuida e até depois.
(completamente fictício e sem imagens agora)

terça-feira, junho 12, 2007

O Corpo

Ainda tão novo por sobre a terra úmida e humilde, que apodreceu por vontades vermicídas dentro de tão pouco tempo. Não pode mais mover-se.




A alma tão jovem, aprisionada por seu próprios pecados da carne, não é mais um castigo, é um dogma. Dogma esse que prende e que mata aos poucos.


Doença... ?


Os olhos ainda fechados, abrem as janelas da mente. As secreções visuais impedem que veja o horror, os crocodilos e os vermes. A boca serve pra ser cobra e pra berrar o não-sentido a todo instante...










...





Corpo podre, alma nova. Sentido abstrato, que não traz nada além de uma fusão de jóias e correntes, que não se chocam e nem prendem a vida.Que por mais que sofra ainda flui. Ainda emerge.

É tão livre e belo o movimento que não preciso descrever nada sobre, apenas necessita-se do olhar e da cautela.
Por pequenos visores, as perspectivas se multiplicam por mil. Agora, que te soltastes, és livre pra que voes...


...

O corpo, aprendeu, a abrigar as almas em harmonia, e agora vive úmido e humilde. Sendo apodrecido por atitudes vermicídas...

Imagens por José Marafona

Não existe

Simplesmente porque não quero.
Até porque não posso.
Ou seria impossível, porque espero.
Porquê, não quero poder parecer possesso.
Deveria ser mais fácil dizer o porquê.
Do que perguntar porquê.
Não existe porque eu eternizei
Aquilo que um dia pensei que fosse estranho, porque não era.
Porque pensei, parei.

Parei.

segunda-feira, junho 11, 2007

Eles não cantam no inverno



Eles não cantam no inverno, mas aqui dentro, todas as manhãs, como se soasse o som de um sino ou de um despertador, eles cantam, gritam muito.
No inverno é silêncio, no verão é intenso.
Poderia ser de várias formas, tamanhos e cores. Mas as ondas na minha cabeça, são de uma só. Ou melhor, de alguns só.
De alguns tons, de alguns ruídos, de alguns pássaros, de alguns chiados, de alguns.
Dou o "play" pra começar a ouvir, o "pause", carregar. A espera com o fim maravilhoso, me fez esperar.
Poderia ser a minha preferida canção...
Eles não cantam no inverno. Mas os dias se aquecem aqui dentro.

quinta-feira, junho 07, 2007

Não quero me deixar levar pelas ondas de agora. Muito menos se forem as ondas daquela praia distante, onde criaram-se tribos distintas e tradições ocultas, ao cair do sol.


Nunca pensei também, em ser mais ou menos perto do tamanho de um grão de areia. Quis até, chegar mais perto de uma gota d'água, que por si só é densa.





Antes fora o momento exato pra que eu soubesse separar o mundo.

Separar a terra do mar, o mar da terra, a terra do homem e o homem da terra. Não fazemos mais parte desse conteúdo gélido e morto.
As amarras todas prendem-se a mim. E aonde, aonde estou?!

quarta-feira, junho 06, 2007

Nas mãos.

Esse meio indeterminado de me dizer o que serve ou o que não serve me leva a perceber que minhas analogias rodeiam, rodeiam e rodeiam. Mas acabam entrando num meio, do qual não saem. Ficam tontas com todos os retoques e com todos os detalhes. Talvez porque sua capacidade de absorção seja tão menor de que pensou-se em outrora.



Bem, se fosse impossível dizer a mim mesmo que o tempo corre, diria. Diria para o tempo congelar e ficar assim, inerte, para todo o sempre. Ou para sempre quando eu quiser. Não quero culpar o trabalho e os calos pelas dores do tempo. Mas quero culpar o tempo que me presenteou com as dores e com a culpa do remorso.

A angústia ainda tão pouco vivida habitava de uma forma na alma da concha, que a casa perdia as suas poucas estruturas.

A posição das mãos em cura não se parece com o que um dia pensei em pensar que fosse possível chegar a tal pensamento conclusivo.



Os meios de análise falharam. E meu amor caiu por terra, no chão da estrada.

No tempo. No vento. No canto. No valo. No ralo. No fundo. No vazio. No estático. No parado. No intenso. No inerte. No tranquilo. No coração. No peito.



E as mãos trouxeram-no até onde seria mais prevísivel dentro da analogia construída com o tempo. Na dor. Na espera. Na frustração. Na angústia. Na felicidade. Na calmaria. Na tempestade. Na alma. Na concha. Na hora. Na cama.



Doente e tonto com visões monocromáticas que trazem vertigens aos pobres olhos da razão, que se faz forte e que não figura. E sim, literaliza.


*Imagem por Olga Gouveia

terça-feira, junho 05, 2007

Praça pública


Quero te conhecer por mil anos, mesmo sabendo que te vi há um dia, pra poder dizer o que der na telha e falar as piores besteiras possíveis.

Vou também, buscar palavras sem lógica nenhuma pra explicar uma suposta razão que eu próprio criei pra dizer que tu és uma pessoa assim, ou assado.

Preciso lembrar também que, nesse único dia que te vi, te avaliei por tudo. Pelos gestos, através dos olhares, das poucas falas, das risadas de canto de boca, das palavras soltas que saíram no meio do silêncio e também te avaliei pelo seu jeito de andar. Não olhei pro teu cabelo ou pro teu gosto intelectual. Olhei pra ti. E vi físico e alma.

Agora, como sei de tudo o mais que precisava saber, tiro as minhas próprias conclusões precipitadas a teu respeito e garanto que, minha mensagen subliminar não-dita, vai te tocar no âmago.



Sou um intrometido aos olhos alheios, mas é bem diferente.



Quando vejo passar lá embaixo na praça ou em qualquer outro lugar que seja, eu penso nos tropeços que poderias dar ao subir este ou aquele degrau. Imagino também que o amor de tua vida chegará e te beijará de imediato, me tirando as emoções e arrebatando-as às ruas.

A praça pública da tua vida é pra mim o que eu queria ver todos os dias. E vejo tua sombra diferente, todos os dias, correndo por lá. Mas não calculo as horas, os dias e muito menos os anos que passei olhando por esta varanda para a rua, que sempre me foi tão atrativa.



Oras, seria possível eu te dar um elogio mesmo nunca te vendo?

Claro que seria, afinal de contas, o meu poder de mentira (ou poderia chamar de criatividade?), é muito maior do que eu imagino.
E tu irias se deixar levar na hora pela amizade forjada em um segundo.

Me enganaria depois, e iria, com certeza cair em desespero súbito, por pensar que enganei a ti e a mim mesmo.

Mas agora que já te desvendei pela metade, é meio caminho andado até a praça pública. Lá onde a tua imagem se esconde e te transformas no que queria deixar de ver.
Foto por Olga Gouveia

Contrário ao estivesse se como.


,explicar se pra loucas coisas São
.um cada de entendimento do fugindo acaba e
lama de ser parecem palavras Minhas
acabo eu e
.pensamentos próprios meus dos sentido o completamente perdendo


.parar em então Penso
.busca uma de precisa ainda talvez que aquilo mim em perder Deixar
.saiba não e contrário ao tudo pensando esteja eu Talvez




.aritneM




segunda-feira, junho 04, 2007

A tentativa.


No primeiro momento foi como se tudo sumisse e o que restasse fosse...
Não restou.



Tentativa inicial.
Clamar as dores não compartilhadas para os ventos que não estão soprando hoje.

Tentativa dois.
Calcular as hipóteses, somando-as com as ações para que de modo estranho, encontre a razão.

Tentativa três.
Sair do medo e partir em busca da coragem mais racional possível para que ultrapasse as barreiras que prendem aqui.

Tentativa final.
Ingestão de dores, de estresse, de calúnias, de blasfêmias e de pouco amor, ou de amor sem doses. Overdose de existência. Quase inércia eterna.



Conclusão do processo: Falho; e constatou que não era o que queria.


Imagem por Olga Gouveia.

sexta-feira, junho 01, 2007

...?

Da mais doce inspiração foi possível absorver o mais doloroso gesto não-concreto. Mas de sentido completo. E se teu amor não fosse mais que senão uma pequena pena que não pesa em meus ombros, mas que apenas me suaviza e me faz sentir que teu olhar inexpressivo ou o teu não-olhar é tão pesado que me faz cair.

Que sensação de mar é essa em teus ouvidos? Não escutas o som da alma e enlouquecestes com o mexer das águas, devido ao ritmo constante do mesmo.



Todas as tuas explicações levaram o que somos direto a um poço, um poço com luz. A fraqueza nos fortaleceu e o paradoxo, eterno paradoxo toma conta de tuas almas e te transforma em vários pseudônimos inconstantes e indecifráveis.



Se vistes o que tuas pequenas palavras proporcionam, verias que não é mais um corpo, e sentirias finalmente que esta carcaça que está a pesar por sobre a terra tem algum próposito, algum fim.



Por mais que teus passos ritmados vão e voltem, te desconheço a cada instante. Tuas imagens não são pra mim como um reflexo de teus pensamentos, porque não desvendo o que pensas. Mas se fosse possível te sentir, serias tão gélido quanto o gelo, e ao meu toque derreterias.

Serás aquilo que definires ser. Terás o quiseres ter. E ao mesmo tempo não terás nada, almejando sempre mais...





?