quinta-feira, julho 26, 2007

A espera

A caixa sonora, o livro debruçado sobre a mesa, triste e sólido; o rádio com o volume reduzido, o chiado da música, os olhos fechados; tudo escuro.
Lembrava até um momento de vazio, de solidão. Um momento rude, gélido e desprevenido. Qualquer forma de dor poderia atingir o corpo, afinal de contas, só conseguia pensar em uma coisa: o depois.
Esperava que depois de nascer denovo, tudo fosse melhor, que as coisas crescessem mais rápido, que o mundo não girasse e que a luz não sumisse jamais. Que ficasse eternamente ali, aquecendo e iluminando.
Os ponteiros estavam criando uma nova melodia a cada instante, uma nova forma a cada passo, um novo desenho que tentava fazer. Só que sem sucesso. O desenho nunca acaba nos ponteiros.
O tempo que sempre trás consigo a angústia, trazia naquele momento a incerteza; incerteza de que os seus desejos eram exatos.
O corpo jogado nos panos esperava por um momento inerte que fosse eterno. Só não esperava morrer.

A noite veio e as vozes se calaram já que não podiam estar mais ali. Os olhos não queriam mais abrir e a sua voz estava sumindo. O sangue jorrava dentro de seu peito mas não sabia como dizer que era chegada a hora do último abraço. Não podia dizer.
Os dentes quebrados, a língua aprisionada pelos lábios que tanto falavam, não podia lamber o toque suave que o amor lhe proporcionava em alguns períodos.
A chuva de lágrimas que invadiam os olhos cessara e agora só o que restava a ele, era tentar abrí-los e amenizar a angústia de não ver mais o resto do mundo que acolhia com suspiros suaves todos aqueles que o habitam.

Depois da chuva, nada mais existia... Pra sempre.

2 comentários:

  1. Adorei ler sobre a chuva... ou melhor, sobre o que ocorre durante uma chuva. Nesse caso, A chuva. O som, o cheiro, o momento... é tudo tão bom, poético...

    Aproveito para dizer que gostei muito dos seus comentários, que da mesma forma como você achou belos meus posts, também achei belos seus comentários. Também me fizeram pensar, pensar com a sensibilidade.

    Pra você, um abraço.

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  2. Esqueci de uma parte ótima nesse post... que não poderia ter esquecido: o relógio. A sua descrição sobre o "andar" dos ponteiros e a vã tentativa de desenhar algo através dos ponteiros refletiu-me. Sempre penso olhando fixo pro relógio... Muito bom mesmo!!!

    Outro abraço.

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