quinta-feira, setembro 06, 2007

Transição corpórea

Tão mais cansado, debilitado e fragilizado, sua alma parecia um cristal. Todos viam com medo intenso de tocar. Estava tão quebrado, quase doente. Não seria ele mais fonte alguma de inspiração. Apenas o mundo, essa grande bola de lama dura que ousamos chamar de lar. Lar.
A boca seca fazia de seus gostos os mais horríveis que já sentira e as pedras que colocava em seu caminho eram por pura correção, queria saber andar. Tropeçava insistentemente nos próprios acertos, corroía com lamúrias as virtudes e depredava com fúria a sua inocência:
- O que há de mais sensato numa cobra, senão as suas escamas?, que definem e que caracterizam seu veneno, sua mortalidade! Está no sangue! Hoje sou vermelho porquê explodi. Ainda uma pequena cobra chorosa saindo do ovo e mordendo o próprio rabo! Quisera eu emancipar meus sentidos e abandonar essa angústia que é ser um filhote, rastejando-me para tudo: comer, andar, ser, viver. Um submisso, um grande corrompido pelo amor de mãe. Que vontade estonteante que tenho de me morder, promover meu sangue, aliviar minha raiva e cuspir como remédio a minha pequena gota letal de dor!

Os olhos sempre virando, pararam diante de um pequeno espelho de borda dourada, que não significava nada mais que uma plenitude soberana falha sobre si mesmo, pensando na imensa podridão que acabara de semear em seu próprio interior e com risada demoníaca que saía de um pobre anjo cético:
- Corpo, doce chave que prende minha liberdade, limita meu espaço, destroça minha área, degrine meu ser; o que há em você, corpo? Se dizes meu e estás aí, a envelhecer enquanto sou uma víbora ainda jovem, trocando de pele e de vida. És um baú, pequeno e que serve apenas para guardar um carcaça que jaz putrefata no meu eu. Não me serves pra nada, agora sou um réptil com pele mais forte. Corpo, nada mais és do que um prelúdio da minha morte, um aviso, e um refúgio pra minha chegada.

2 comentários:

  1. poiseh, o corpo prende a alma e a alma libera o corpo. e assim faz a evoluçao, baby!

    acredito q seja preferivel beber de uma fonte pura do q de uma fonte de lama.



    muito bom o texto, mostra beleza na angustia. libere o homem da caixa!

    abraçao velho

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  2. Senti minha leitura aprisionada numa cúpula de vidro.
    Figuras de linguagem tão belas, bem colocadas...
    E esse anjo cético que te habita, expolode, implode, mas só existe nos momentos de maior desespero.
    "como um anjo caído fiz questão de esquecer que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira..."

    sopros de luz!
    =*

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