segunda-feira, agosto 20, 2007

Rotina noturna

Dispersada no ar, as palavras que ela dizia, já não eram mais as mesmas. Voltava a ver em si o que dizia não. Viajava na sua própria alma... Mergulhava nos abismos. Secos e profundos.
Poderia ela dizer que o mundo não sente mais nada senão cólera. Uma indomável cólera que aumentava cada vez mais junto do seu falso sorriso de álcool que destilava seus lábios e fazia com que jorrassem gotas de ácido que caíam em minhas vestes. Derretiam um pouco de minha alma.
Os gracejos não eram mais os mesmos. Os cabelos acabaram de mudar. Ela sumiu de onde estava. Só podia ver um corpo, um rosto. O corpo continuava o mesmo mas nos olhos eu via o abismo que afundava todo o rosto numa pequena escuridão branca. Não havia escuridão sem aquela luz que jazia fria dentro do marrom dos olhos que pareciam-se também com árvores mortas.

Era impossível ver a liberdade e querer te prender. Comecei então, a confabular com meus companheiros de mente sobre moral, convicção, personalidade, justiça, liberdade e fraternidade. Constatações que apodreciam. Frutos que caíam das árvores e não tinham nenhum proveito. Nenhuma forma de convicção ou de dúvida se criava. Só ficava um grande abismo naqueles olhos. E meus braços já não podiam salvar mais nada.

Os corpos continuavam entrelaçados. Os braços fugiam de um lugar para outro e não conseguiam parar de correr por sobre aquelas peles lisas e frescas que queimavam por dentro, sem amor. Era o resultado que tanto esperavam e que ficava subentendido naqueles atos nada singelos.
Depois de tudo completamente acabado, não se tinha o que queria, os desejos não eram mais possíveis, os artifícios e o dinheiro já tinham acabado e não eram mais alegres pra falar. Sabia-se menosprezar e discutir.
Mas o corpo continuava como água. Os olhos se tornaram um lago profundo, com lágrimas doces que ardiam dentro dos olhos; uma espécie de cura que a mantinha inerte dentro de si mesma e congelava os braços que não aguentavam mais correr para outro lugar.
Eis tudo.

Um comentário:

  1. todos temos rotinas noturnas..

    (mas confesso que a minha, é bem chata)

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