sexta-feira, maio 07, 2010

Dos poucos aos fundos

O que era antes confissão, agora são tons de uma conversa, que se inicia em ponteiros zerados e ruma em direção ao silêncio. O que antes era desabafo, agora concreta-se em suspiro de esperança, porque começa a fazer sentido notável que as falhas, são alicerces para um acerto. E nesse diálogo, que desenrola-se mudo, as situações transformam-se em coisas e criam forma. Forma que fala, que direciona, dá sentido.

E nesse sentido cravado nas ranhuras é onde eu encontro a fala de um sonho que ainda não morreu, porque se a fome matasse os meus problemas, os sonhos famintos por uma lembrança remeteriam tudo a um passado ideal, onde as falhas podem ser todas corrigidas, e a morte não ronda. Não faz escala e não cria problemas. Não a morte da carne, mas essa morte diária e constante de si mesmo, de tudo que dá tom, som, cor, forma e peso às coisas. Essa matança é naturalmente interminável, e nesse ciclo encontra-se o sentido pleno pra entender que quão mais cru estamos beira a essas razões, as coisas mantém-se como são. E não saem correndo por aí, esquecendo da gente.

Uma grande falha são todas as luzes vermelhas que indicam um perigo que muita gente ainda não conhece por ver glória. É o perigo do progresso, que forma uma fila gigante e sinuosa, seduzindo a quem vier ver. Em certos momentos, a fila vira cobra e toma movimento, mas nesses mesmos horários, todos os dias, se ficar observando, é possível ver ela rastejando a frente, rumo ao descanso, ou acaso. Insignificados sem sentido incondizentes deploravelmente ligados por incongruências de medidas pueris de desvios do descaso. E nisso tudo, as coisas beiram.

E os bafos que ardiam dentro da boca, agora criam sons e isso dá fome de novo, pra continuar a comer, sempre que preciso, enquanto tudo não for confissão e segredo.

quinta-feira, maio 06, 2010

A resposta (espaço) pra pessoa (espaço)

Nota-se um costume malvado, todos os dias, de apontar. Os dedos, ou até o olhar, e isso incomoda. Apontar as lanças pra cravar no peito, que não lhe pertence. Apontar o gumo pra cortar mais fundo que em si mesmo;

Perde-se a noção de olhar pra dentro, de ver que o valeria a pena, às vezes nem sempre é o que de fato dá rumo as coisas. As escolhas formam-se desse fluxo-refluxo, grito surdo. O sim antecede o não, e as coisas se dissipam diante dos meus olhos, porque toda vez que penso nos teus, que logo pela manhã de hoje vi na face de um estranho, a tez que agora parece suave, mostra-se verdadeira, e derrete em preocupação e lamento.
Não me perdi no caminho, porque ele nunca existiu mas o chão ainda é parte do meu rosto, e quando olho, tudo que vejo é superior a mim. Não há como disfarçar que algumas palavras já tornaram-se uma reverberação no pleno vazio e que a configuração de ti é ausência em mim. Não há mais a ação do momento, nem o toque nos sentidos, logo não sabemos nunca do que falamos, e caímos nesse jogo agudo. De indicar o que há cá e acolá.

Botar fogo no chão da rua destruiria todos os nossos caminhos, e não há mais nada que eu possa fazer a não ser permitir que faças que o bem entendas, e que sigas nesses dizeres de interrupção de si mesmo. Ao passo que te interrompes, nos proíbe de seguir e nessa pausa o que vemos é que nada mais faz sentido já que a ...


Essas pausas no tempo dão a garantia de que a vida se preserva em algum lugar por aí. E que às vezes é melhor esquecer algumas palavras que poderiam com certeza virar fardos num caminho estreito que com certeza há de surgir.

E nesses apontamentos todos, no meio deles, parado no auto da rua, tem um espelho.


terça-feira, maio 04, 2010

Do que podemos ser em prazer, de ser cruel

Hoje quero falar de uma intensidade impessoal, que surge na mediocridade simples de uma conversa.
Quando penso em coisas que me trazem ao encontro de mim mesmo, é como se esse sol forte que encerra o dia penetrasse no meu olho pra clarear tudo, deixar essa luz batendo no azul, cada vez mais claro, cada  vez mais agudo. essas ranhuras todas são uma verdade bem crua, bem limpa, que toca e purifica os sons e tons dessa esquina suja, canteiro de lixo.

Enquanto a luz vai embora, meu corpo se joga com agonia prazerosa dentro dessa leitura de si mesmo. O corpo que se vê transporta-se para o corpo que sente e o sentido se encontra no pulsar de um semi-abraço, agradecido sem palavras. Quando a necessidade de uma meia-palavra existe nessas bocas que sempre querem falar, mas que dificilmente o conseguem, é um êxito gigante. Saber que é possível conversar por essas entrelinhas. O que se empurra é que o se diz, e tudo que eu poderia desejar fica resguardado pro aguardo de um depois. Depois do instante que o ônibus fizer a esquina e eu ainda estiver devaneando sobre o clarão das nuvens, projetado pelo sol. Ou o da pele clara, abaixada no chão, perto do espelho, que me remete a ver os dois lados de um vazio. A sala, e uma espera constante, tortuosa.

Busco na minha mente, uma forma mais simples de poder dizer que o que me inspira nem sempre é o que nos toca, mas que a parte boa disso tudo, dessa informalidade-formal, é saber que nos fins parecem que os percalços todos nos levaram pra uma mesma direção, onde o momento de esclarecimento se dá quando dizemos que nos bastamos nessa luz que nos afasta. Se pensarmos mais a fundo, acho que nos veríamos de fato numa luz-sombra, porque ambas são alentos de um distúrbio que não se diz por si só. É um distúrbio discursivo, falado, e entregue aos prazeres de sua própria dor. Esse é o supra-sumo daquilo que encontramos em nossas capacidades. Tanto as da fala, quando do olhar. É nesses momentos de desprendimento que nos encontramos agarrados a nós mesmos. E isso que fortalece, a cada dia, pra poder seguir em frente.



E nesse tapa-carinhoso, deixo-me esvair pela fumaça que ficou na rua, entrecortada por esses raios de sol que vão encerrando o dia.

terça-feira, março 23, 2010

domingo, janeiro 24, 2010

O vitral e as duas sombras

As coisas se passaram num curso que aos poucos se mostrava irrefreável, e o escuro veio demonstrar que os teus passos não são mais os que me seguiam. Eis que me entrego ao que posso sentir, e nesse vácuo pressiono-me em retorcidos movimentos de mim mesmo, resistindo perante a retrocesso. Todo processo de volta me coloca em repetição. Ao passo que me liberto sinto que atinjo o mesmo chão de outrora. E amargurado, o olho se fecha pra tentar ver mais oblíquo, mais certeiro. Erro a direção e vou atrás do lado que não quero.

Vejo de repente que não fui convidado a nada, mas ao mesmo tempo a minha compania torna-se último refúgio na hora de um maior aperto. A entrega aos sorrisos não me põe motivos para a dança, e as reações aos meus gritos, não me deixam entrar nessa janela...

Peguei o que restava da minha atenção, misturei ao teu escapismo e encontrei-me. Só, olhando pra trás e não vendo o sentido de nada; de nenhuma luz e de nenhum ruído, porque com tantos olhares e motivos que não eram meus também, não há modos de se atingir uma certa plenitude.

E quem já conhece o infinito, esforça-se por saciar na finitude os goles da anestesia suntuosa.

É uma proposta que não convence, um pedido que não se ganha.

Olhar pro lado, remete à uma distância que pede pela proximidade dos passos.
Afastar-se é benefício, quando penso que estou errado.

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Descarrégo

Se ficasse um vestígio de doença ao teu redor, sinto que o eliminarias com a força de teu grito, pois a hostilidade que vos fala é  muito mais influente do que o choro que te circundas. Os ciúmes e as competições são exemplos de um comportamento bem comum. Mas a voz rouca, num momento que deveria ser pura, é inaceitável. Não dá pra compreender isso. Às vezes ficamos a pensas na improbabilidade das coisas e é óbvio que em nada chegamos. E não sou nada diferente. Prefiro descarregar em primeira pessoa do que me disfarçar em alguém diferente. É fato que as coisas não andam bem, mas não fazemos nada ao redor também. Se incluir altera os fatos, mas não a situação. A inclusão torna-se mais uma perspectiva dentro dessa chateação. Se não existissemos, há promessa de que serias melhor, mas ao passar do tempo que vejo que teu inimigosó te torna pior. E a fraqueza de cada uma das palavras espelha com exatidão a miséria de uma concepção. A vaguidão desta sala não tem dimensões pra calcular a vastidão dessa solidão.

quarta-feira, janeiro 20, 2010

À força

Subindo as escadas cheias de lama, depois de chuva torrencial ter caído sobre o rosto, de ter sentido chuva fina espetando a palma da mão; de sentir a água morna do banho, parecendo carinho que não existe, esvai-se em energias que desconhece. Entrega-se a cores que ainda não viu, que sente saudade de ver e a outras que queimam a casa inteira.


- Vontade de estar longe,  longe dessa cama, desse calor nas pernas, desse som de vento quente, dessa música monofônica, dessas pessoas, desse lugar. Desse bailado, desse trançado. Desse laranja. Vontade de cair de cabeça, no escuro e profundo. Sem definição para o que seja. Vai, atira logo. Não conseguiria. Me desculpe, o fluxo. É demais pra você aguentar sentir. A verdade tormenta. Tormenta.
-Lavar o rosto em meio à fumaça de plástico, continua deixando a pele suja. De futuro, de passado e de mim. Sujo de mim, enquanto não estiver prestes a aceitar que outro possa me sujar. Meus inimigos sempre foram eu mesmo, meu Diabo católico é meu amigo mais íntimo, meu ego espelhado. A ruína das sensações nasce da mais pura covardia em admitir meus próprios erros. E os dias se passam, e as palavras nunca bastam.

Uma pergunta no escuro, movimento invísivel

A percepção estende-se ao silêncio porque as perguntas levam ao questionamento de minhas próprias ações. É o mesmo que estar preso a própria cama, sendo atormentado pelos próprios sonhos. Não há saída mais cômoda do que o entorpecer-se de ruídos e buscar-se em canções que me identifiquem. Colocar-se dentro de um ritmo, mesmo que desconhecido, pra tecer no silêncio as sensações que ofertadas foram com movimentos. A dança é mesmo algo que surpreende, porque nos torna arredios, arrepios e livres de nós. Enquanto entrega, somos dançarinos infinitos. E quanto a sermos humanos,


Por que te bailas à humanidade?

terça-feira, janeiro 19, 2010

Ao grito de uma criança

A inconsistência do que consideras maduro ou não, ainda não se relaciona com quantos passos destes até agora. Por isso respeito a precariedade de teus muscúlos, que quando aperto, sinto torcer. Porque sei que ao passo que alguma dor é provocada, dilacera-se algo a mais, que seria impossível entender, salvo o elo que temos, inquebrável. A ciência das coisas desliga-nos, mas a misticidade delas é o que nos mantém sempre próximos.


Estamos aqui, conectados por aquilo que desconhecemos, sempre.

Do que a varanda me diz

-Das coisas fáceis que eu havia imaginado, nenhuma incluía pensar a respeito da indecisão. Que por mais complicada que vos pareça, acrescenta-me à ausência de mim. O quanto daquilo que se perde, pode ser o que se gaha. Os riscos de um jogo receoso, em que as minúcias são pontos na construção de um desejo, mas nunca trunfos no instante de uma conquista. As coisas tem a mania de se enganar e por isso, provam-se cada vez menos do que são. O escuro, profundo, tem dominado a mente desse lugar, que ainda ouso dizer meu. É preciso clarear as coisas pra vê-las melhor.

Com a cabeça inclinada de razão, fica mais complicado argumentar as facilidades de um porquê:

- De certa forma, eu estava aqui deitado no gramado, olhando o céu pensando nas coisas: até que aparecestes e distraístes o meu foco. Perdi o tato, por buscá-lo onde não podia lhe alcançar, e nesse fluxo irrefreável de observar o que há para ser observado, quis o toque. A malícia do sentido engana-me por mostrar algum tipo de certeza que eu desconheço. E quando tudo estava ficando denso, apareceu algo com ares de cumprimento. O que eu há pouco tempo não tinha, tornou-se o que eu sempre esperei.

domingo, janeiro 17, 2010

Me fale

Que os dias não se perdem assim, diante daquilo que lhe pedi, que tinha a ver com acreditar no que eu digo. Mesmo que eu nao tenha fé em mim mesmo, aqueles sentimentos cravam-se na minha pele.A longa solidão que nos distancia já não é mais motivo.
Saia desse lugar, o som das folhas no parque é muito atrativo do que esse som que sai da máquina.
As vozes da máquina completam, um pouco,  uma solidão.
Esperava que as coisas acontecessem de forma um pouco mais branda, mas a vista arrebata, distorce os sentidos. E eu fico pensando se dominar as coisas transforma-as em algo positivamente humano. Sendo que compreende-se que o comportamento de sua mão, frenético, quer dizer algo sobre quem somos.

Mostre alguma coisa, enquanto eu ainda não encontro o sentido. O sentido de uma direção em que eu possa acreditar. Não me tire desse lugar, não tenha a coragem que eu tive. De sair, sair para dentro de si e se esconder num silencio. Um silencio sincero, mas sempre silencio...


Até lhe deixaria abrir a porta de novo, mas ja escureceu, vejo somente o clarão das idéias. A hora de partir, perdestes. Então fique fora, porque dentro não podemos nunca nos unir.


Nunca é um ruído que certamente nunca compreenderemos, assim como a nós mesmos. Então dançamos e nos entregamos ao banhar-se de nossa própria água. Tornamo-nos, sozinhos, perfume, roupagem e sensação.


É cada vez mais possível acreditar que somos um universo de um só.
E que o redor, são as nossas estrelas. E a covardia de dizer de verdade, que a paixão é fogo que arrebata. Não o canto úmido de uma sereia. Que refresca. Esse canto, é o que mantém o olhar preso. Mas o que arrebata é esse fogo, que parte do mais profundo jazigo, escondido em algum canto desse universo, que eu palpitaria, saltitando, em dizer: coração.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Círculo



Naquela sala enorme, de portas amplas a um jardim verde e simples, mas etéreo, as palavras fluem. De uma cadeira confortável, onde a música tocável embala o pensamento à plenitude dos sentidos:


-Seria sábio de sua parte consagrar algumas horas do dia de hoje ao descanso de teus olhos sobre os meus, ao deleite de nossa união. Seria sábio de sua parte, jovem tolo, reconheceres a grandeza de tudo aquilo que nos rodeia, e por mais confuso que seja esse amor, nada te atrapalhe nos afazeres domésticos. Os teus desvios das tarefas não são erros, sentar-se e esperar as horas passarem, não são erros sem conserto, são apenas esses reflexos que tens, em atraso.


Pega a caneca com chocolate, acaricia-a de leve com a ponta dos dedos.


- Não é mais o mundo que irá te guiar depois que eu surgir, sabes disso. Sabes que o impacto que causo sobre teu corpo é mais forte do que teu espírito que julgas ser poderoso. Sabes da universalidade de meus gestos, e da supremacia de meus sentimentos sobre teu coração. E que presente mais glorioso do que a consciência de um sumo real. Não há. És o meu trunfo, assim como ainda sou o teu. E sempre hei de ser. Porque plenamente, em mim, reside o sentimento de tudo ao teu redor, torna-se palpável. E todas as palvras que digo, direcionam-me a ti. E o ciclo que isso exerce, me confunde, tornando o que somos, plurais e extremos, em um único prensado de tudo. Dos pensamentos que te fervem a cabeça, da moral que te espanta, da liberdade que te reprime, do amor que nos amedronta e nos assusta. 


Dobra os dedos da mão, enquanto encosta-os no joelho.


- E se a sabedoria é o estopim disso tudo, saiba que o amor é o fim. A explosão que nos corrói. A mensagem que sempre tentarás decifrar. Os motivos de uma trajetória são sempre os que julgamos bons, mesmo que não o sejam, e desta vez sabes que andar ao meu lado só pode guiar-nos ao entendimento mútuo e pra longe da solidão. Mesmo no vazio de nossas consolações, não estamos sós. Pois sabemos de nossos lugares, em nós.




Abraçam-se, beijam-se, com a esperança e vontade do para sempre, que os prende no medo do nunca.

quarta-feira, novembro 25, 2009

O escuro que barra a luz que queima

A maior pedra que poderia aparecer em seu caminho, que serve de ponto de parada, é agora uma bola quente e dura, onde clareza e compreensão se conquistam com dor de ferro e fogo. O saber torna-se disponível somente aqueles que sentem-se plenos na maturidade das decisões. E seu corpo, não se importando com feridas, vai e queima-se, transpondo o que  as palavras não conseguem nem sequer explanar. Mas as tentativas são as filhas da falha e do acerto, por isso a tensão, por isso a pressão sentida:


-O espírito ancião é o que guia meu corpo nesse lugar escuro, quente, com estalidos dos meus próprios ossos e com a dor, aguda, de meus fracos músculos, pra me dizer que há a esperança de transpor os níveis rasos. De baixa consciência. Não há como medir em níveis aquilo que meu coração sente. Meço em batidas. As de desespero são muito mais eficazes que as de felicidade. Abrem os olhos diante do horror real. Fecham as mãos, preparando-nos para a batalha. E a reclusão de todos os sentidos me esconde atrás desse biombo de vidro, onde mesmo não aparecendo, os outros me vêem. Como algo que não sou. Como algo que não sabem de mim. Como uma impressão que, sem ver, deixei transparecer.


A visão do real impulsiona suas mãos aos olhos, sua boca aos braços, formando a prece. A prece sufocada, que não fala, mas que lateja o crânio, que machuca as pálpebras, que não conseguem ficar fechadas. A luz pede para que se abram. Mas o escuro é caminho incerto, e a incerteza o guia dentro das impossibilidades que configuram-se quase reais. É quase real ser amigo de quem nunca será visto, é quase certo estar próximo de uma porta que nunca vai ser aberta. É meio óbvio que o erro de abertura esteja ali, escancarado, mas nunca verá, nunca verá.


Porque mesmo com a dor, aguda, agora em todo seu corpo, seus sentidos intocáveis mostram-se resignados a negar a dor. A negar a desesperança. 


E seu amor, cresce. Explode nas nuves que ficam acima de sua cabeça. Transcendem a si, que está prestes, a depois de ter rezado e ter se sufocado, pegar tudo que lhe é devido e que lhe pertence, por direito. Desconhece de seus artíficios. Seu corpo cai, sempre antes da queda. Quando sente a dor do impacto, já está lá há muito tempo. 
É como se estivesse sentindo em câmera lenta. 

sexta-feira, novembro 20, 2009

A visão que sobressai dos lençóis

O que os olhos podem ver ainda é muito maior do que a boca é capaz de explicar, e a visão das coisas efêmeras é o que assola os corações insubordinados. A estrutura que se concretiza para a criação dessa atmosfera cheia de gostos e desgastes, leva a inconsciência a um patamar elevado. Ao patamar ínfimo do que se perde no meio do caminho. E a isso, Josué dá o nome de liberdade. A liberdade da desenvoltura de seu corpo, não é a mesma quando acorda e muda sempre que vai dormir. São anestesias análogas, mas com intenções diferentes.
O corpo, murcho, cai leve ao chão, como se fosse pena, quando o único desejo é fechar os olhos. 
Levanta-se mole quando o dia novo vai começar, para que ele caia de novo. Todo os começos sempre acabam sendo grandes e indomáveis encontros com a ruína; e mesmo quando dormi sorrindo, sente-se... 






















no chão.

sexta-feira, novembro 13, 2009

Saindo para um hiato

Conduzido por algum tipo de pena, dessa que não se sabe de onde vem, nem pra onde vai, o cachorro se guia pela rua. Guia-se pra dentro de uma metáfora que vai perdendo rumo.
Sua língua saliva enlouquecidamente por essa água que vive bebendo e que nunca mata a sede. Abana o rabo pra dizer que não liga e que de certa forma é independente, enquanto urra em seus próprios ouvidos. A fome tornou sua barriga uma cova de vermes. Ao menos sabe que dentro de si tem um mundo inteiro, só desconhece os motivos que levam a selvageria gloriosa pra um degrau de selvageria incontrolável. Se descobre tão selvagem que se desbrava em si. Esse cão tem milagres dentro de si e tem uma narrativa completa a seu redor. E enquanto apalpa com almofadas pequeninas seu rosto, conhece as feições, mas no fundo não distingue os traços.
Se falasse humanamente, se diria o rei dos oprimidos.
Mas se oprime por nada, se oprime por ter todos os ossos ao seu redor, se oprime por ser amigo do cão sitiado e o graceja assim que bem lhe apetece.
Ao cão é inegável a qualidade de arredio. De rebelde sem fronteira, sempre rumando ao norte. Busca norte e nunca teve seu próprio. O norte pode variar de acordo com os termos.

Quando ladra, pretende morder, mas como não tem todos os dentes formados, protela. É ainda um filhote, na verdade. Uma criança buscando, sozinha, um ninho independente no meio de uma multidão. Uma revolução para poder se aproximar da matilha. Ser lobo é muito mais importante do que ser raposa. Ter a beleza dentro da esperteza e fazer dela ícone de escapatória é lampejo brilhoso nesses olhos escuros encobertos por pelos lisos. De tão lisos, que esquece da fronte e seus olhos entram mais e mais.

Os olhos são a entrada da cova dos vermes. Os vermes são o convite. O chamado. São brinquedos maravilhosos assim como combustível prazeroso, mas são mesmo assim vermes. O cão não discute se são bons ou ruins, apenas sabe que o são. O são. E dele. A sua mordida delimita a corrosão e o prazer. Seu movimento é o limiar entre a inércia e a ação.

Para esse cão, o uivo independente não se completa sozinho. Seu choro tem que ser um espetáculo, porque afinal de contas, ele é o rei dos oprimidos.

Espiral

Estava pensando sobre a verdade de algumas coisas e sobre a mentira de outras tantas.
Chego a superficial conclusão de que o peso de atos pode refletir na carreira de um sonho.
Que o percurso torna-se fardo em determinado ponto.
Que a noite é densa e palpável e que o dia é tormento iluminado.
Não prentende-se mais a retórica lírica porque os dias perdem a noção de um sentido.
Não guia-se mais pelo padrão de se guiar. Guia-se pelo prazer de não olhar.
E quando olha-se, o prazer continua ali.
Parado e investigando o próximo orgasmo.
Mas não é o prazer que move.
É não ver.
E não ver é como estar correndo numa velocidade absurda.
Parar e olhar pra trás é arrependimento certo.
As cores cafonas da estação passada se renovam. A moda, pra todos, morrerá sendo uma espiral.
E para os cegos que continuam a se movimentar, fica a sensação de fluxo e renovação.
Todo momento de visão é um retrocesso.
Uma lembrança nostálgica daquilo que foi um dia o atual.

O mofo azul do ninho

As decisões mofam numa gaveta vazia, ao lado de um bloco de palavras velhas, com um bando de folhas secas e um pouco de água derramada no rosto. Água salgada, que vem de dentro, e saí suave, como se fosse um carinho triste:


-Preciso sair daqui agora, tanto que o nome do que toca naquele rádio que não é rádio, é sobre sair de lá. Mas de lá prefiro aproximação. Proximação. Não existe. Então as músicas mudam, e o sentido que as ofereço, troca de novo. Troca sempre que ofereço algo. Na verdade, tudo que ofereço é um algo que de nada serve. Não há como se esbaldar com o que tenho: nada. Esses pontos que remetem a "está para" não estão para me fazer bem nenhum. Nenhum arrependimento condiz com a noção de tempo real. O tempo real é o enredo de um filme que nunca acaba. O enredo desse filme, os outros lá chamam de vida. A ilusão faz parte. Faz parte da vida a ilusão. E a colcha de retalhos se forma abundantemente. Não falo do Brasil. Não falo da pluralidade. Esse pensamento no plural foi o que destruiu as coisas e me fez parecer egoísta. Egoísta por acreditar talvez no que nunca cri até então. Cri. Barulho de grilo. Grilo é um bicho esperto. Fica sozinho, invisível, sabe provocar medo, pode pular pra longe quando precisa. Até a hora que é pisado por alguém. Dentro de uma casa, há quem tire sua coragem de pular. E daí ele morre. Entrar na casa de outro é suicídio ou escolha? Isso é chato.

domingo, agosto 30, 2009

Distopia

No momento que se transcorre, não consigo ver-me, apenas um tipo de penumbra envolto por calor e som de motor me envolve nesse silêncio tremendo, silêncio do âmago, mas ruído do exterior, o som e a compenetração, as atividades quase mecânicas na sua primordial essência, não conseguiria descrever como as coisas tem parecido nesse instante, em que depois de harmonizar-se com meu ar, conseguir respirar livre de frente para um mundo, que eu agora possa dizer que completei algum ciclo.
O ponto exato para partir dessas lilnhas que se acabaram fora um alerta de linearidade, uma vontade estonteante de ser periódico. E a canção segue, acariciando minha pele eriçada em vibrações sultis, ouvindo vozes de amigos vivendo em outro mundo meus próprios sentimentos.
Quero poder abraçar essa teoria como se fose um presente, uma dádiva de vivência livre, consciente e translúcida, onde todas as idéias são frutos de pensamentos livres, dimensões exatas e racionalidade crua.
Quando vermos que a tua casa não é mais importante do que a minha, só pelo fato de ser sua, o dia em que conseguir ver como todo e não como indivíduo, o dia em que a repetição alcançar a perfeição e o erro adestrar a postura, e não a opressão torcer o pescoço em direção ao horror, o dia em que o dia puder ter luz e sombra e horizonte infinito; esse dia, será o nirvana colossal. A felicidade estampada em todos sob todos os seus aspectos, olhares se cruzando por carinho, todos em uma mesma vertente.

Todos emoção racional



Facades - Part 5 of Glassworks - Phillip Glass

quinta-feira, junho 25, 2009

O que mais?

O agudo de uma voz estranha, mas ao mesmo tempo íntima, tem dito-me tanto, que o medo de ouvir a verdade só impulsiona-me à busca de algo novo. O novo dentro do mesmo, dentro do velho. A negação da fala afirma que o silêncio por si só, carrega tamanha turbulência, porque ao redor de minha mudez o mundo continua falando tanto, e aos poucos constrói todas as frases que eu, aqui, poderia dizer.

Esse leque de palavras, ao invés de abanar-me, sufoca-me cada vez mais. Cada vez mais e mais, por sempre ter que ser mais. Não contento-me com esse amor que jorra desse teu vazio, não digo-lhe o que sinto. Não falo-te, mundo, das minhas vontades, pois não as desejas e por isso mesmo enterro as minhas vontades em algum lugar muito perto do meu coração, pesando cada vez esse fardo que carrego sem perceber.

Se o manto da apatia caísse sobre mim, as cores seriam, quem sabe, mais fortes, as palavras mais significativas. Mas não. É acampado na distância, protegido pela tua sombra, que construo a morada onde por instantes escolho viver; olho o horizonte como se estivesse embaixo de meus pés.