Conduzido por algum tipo de pena, dessa que não se sabe de onde vem, nem pra onde vai, o cachorro se guia pela rua. Guia-se pra dentro de uma metáfora que vai perdendo rumo.
Sua língua saliva enlouquecidamente por essa água que vive bebendo e que nunca mata a sede. Abana o rabo pra dizer que não liga e que de certa forma é independente, enquanto urra em seus próprios ouvidos. A fome tornou sua barriga uma cova de vermes. Ao menos sabe que dentro de si tem um mundo inteiro, só desconhece os motivos que levam a selvageria gloriosa pra um degrau de selvageria incontrolável. Se descobre tão selvagem que se desbrava em si. Esse cão tem milagres dentro de si e tem uma narrativa completa a seu redor. E enquanto apalpa com almofadas pequeninas seu rosto, conhece as feições, mas no fundo não distingue os traços.
Se falasse humanamente, se diria o rei dos oprimidos.
Mas se oprime por nada, se oprime por ter todos os ossos ao seu redor, se oprime por ser amigo do cão sitiado e o graceja assim que bem lhe apetece.
Ao cão é inegável a qualidade de arredio. De rebelde sem fronteira, sempre rumando ao norte. Busca norte e nunca teve seu próprio. O norte pode variar de acordo com os termos.
Quando ladra, pretende morder, mas como não tem todos os dentes formados, protela. É ainda um filhote, na verdade. Uma criança buscando, sozinha, um ninho independente no meio de uma multidão. Uma revolução para poder se aproximar da matilha. Ser lobo é muito mais importante do que ser raposa. Ter a beleza dentro da esperteza e fazer dela ícone de escapatória é lampejo brilhoso nesses olhos escuros encobertos por pelos lisos. De tão lisos, que esquece da fronte e seus olhos entram mais e mais.
Os olhos são a entrada da cova dos vermes. Os vermes são o convite. O chamado. São brinquedos maravilhosos assim como combustível prazeroso, mas são mesmo assim vermes. O cão não discute se são bons ou ruins, apenas sabe que o são. O são. E dele. A sua mordida delimita a corrosão e o prazer. Seu movimento é o limiar entre a inércia e a ação.
Para esse cão, o uivo independente não se completa sozinho. Seu choro tem que ser um espetáculo, porque afinal de contas, ele é o rei dos oprimidos.
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falar através de metáforas é facil.
ResponderExcluirdifícil é montar o dito de forma a se ler as mesmas coisas independente do lado que se toma.
por outro lado, graças a deus existem pessoas que são muito diretas.
"peeesaaado"
dont kill yourself tonight.