sábado, fevereiro 14, 2009

Tons

Não há música, mas há som. Não há abraço, mas há uma força que me repele ao encolhimento. Encolhimento do que sou, organizado dentro de mim. Uma força de dois que agora só sai de um. Um território de tragédia. É o corpo. O corpo. Quero sim repetir. O corpo o amor os dois o casal a união: nada disso é. Inventa-se o que se quer. Exausto meu corpo: só explora uma criação que não se compreende. Não se compreende. Rosado meu rosto se encontra diante de um espelho.

Reflexo oxelfeR.

Não há mais o que mostrar. Vaguidão rumando à busca de um sentido. Tentativa: isso que se torna erro programado dentro de uma questão de segundos; onde encontra-se a sensibilidade tangível aos teus lábios? já que tudo agora, no auge dos dias, é sempre tão previsível. Me assistes enquanto eu te vejo, eu sofrendo em qualquer trajeto do meu dia. Seja com sol no rosto ou com lágrimas nas mãos.
Aqueles dias se foram, o inverno hoje queima o corpo de agonia. Só a solidão da madrugada perigosa é que dá o tom do existir: o coração que palpita o tempo todo enquanto o escuto com destreza. Para quê diabos música se tenho coração?: batida cabível as minhas necessidades quando não há ninguém.
Peito: gelo. Mão: calo. Boca: silêncio.
Impressão ruim;fluxo fluxo. Congelado dentro de mim. Regojitando. Dando o tom da modernidade. Agressiva enquanto pode, porque não há mais sentido em contemplar a ruína, agora tão perceptível, dos nossos.

De tanto que se amam, morrem no final. E percebem que não são os dois, mas sim quem são os dois que machucam tudo. Não precisam deles próprios. Amam-se à distância. Com poucas palavras dão o tom do que é o amor.

domingo, fevereiro 08, 2009

O que não se vê

Imperceptível aos olhos da compreensão e trancafiado numa memória. O que tudo tornou-se. Agora ando nestes cômodos com olhos vazios, o sentido pulsa nas paredes mas não na carne.
Faço parte íntegra desse espaço vazio, renegando a evolução hipócrita desse espírito; que por incrível, parece-me sujo.
Sujo de escuro, torna-se cego. E minhas mão tão pouco calejadas fraquejam na premissa de ir até teu posto e pousar sobre teu corpo.

As lágrimas são o veneno que sorvo,mas não só. Só estou como sempre; a tristeza é expansão exata desse lirismo fraco. Trancafiado num frasco. Posso vaguear e devanear até encontrar qualquer resposta longe da tua lembrança, porque longe de meu corpo, minha razão é o que basta.

E dessa expressão de fraqueza - a qual denomino força- surge o inesperado: o desejo de condensar-se à tua palavra, a tua queda disfarçada de ascensão.
Tentar, entender, por via de dúvidas, compreender. A dificuldade de minhas forças encontra-se na facilidade de teus movimentos.
É por isso que fico só; do outro lado há quem viva, quem pulse ao som do meu respirar.
E galgo degraus, invisível, indo atrás da sombra que me refresca o corpo e me alenta a alma;

sábado, janeiro 31, 2009

Estrada direto para o teu lado

É nessa distância silenciosa que o corpo paira, sôfrego; indo de encontro a braços de veludo, de leveza imensurável.

Esse destino que se choca ao meu lado torna-se passado; a vida plena agora é papel rasgado.
E mesmo assim o amor jorra do meu peito, sem sentir o coração palpitar. Só a roupa esquentando a carne.

Meu sentimento é tão tocável quanto aquilo que nunca senti. Te escondas em mim, para sentir que nosso destino longínquo e fardo prazeroso, que no fundo, não queremos, jamais, soltar!

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Um trecho ao extenso

Quando a tua consciência atravessa a cidade, lembras de mim.
E assim que repousas, o surreal te abraça. Lembras de mim.
O meu pensamento estraçalha o que és; me guardas no ar mas lembras de mim.
A memória desse dia é sopro pra aí.
Lembras de mim?

sábado, janeiro 24, 2009

A Voz e O Surdo

As sensações o fazem viver de passado, e o frio que fazia lhe presenteava com lágrimas nos olhos. De amor estava morrendo e nascia, em seguida, cheio de uma curiosidade carnal.
Sua boca não guardava palavras: ele sempre fora um péssimo túmulo para si próprio. Portanto, sua solidão transfere-se a mim. Torno-me o que sou, e neste movimento da barca, meus pés se molham. É água nova. A amizade firmou-se e agora é alicerce valioso, a fuga desejada e o conhecimento necessário estão perto do que às vezes quer-se longe. Não pode ser tão simples compreender o que o frio faz com a pele dos homens: nele reside a saudade e o calor de um abraço.
O solitário fala consigo: a isso chamo paciência; porque homem, como animal consciente, não anda sozinho por muito tempo. E não, renego-me a aceitar a solidão como precedente da doença. Todo alarme e toda a precaução só existem pela doença, e as almas livres que experimentam a cura por puro gozo, são sempre as que mais sofrem. E meu sofrimento torna-se o dele.
Sua boca já tão seca ainda revela muito, porque o cansaço escorrendo pelo corpo é um alerta fatal de que ele, em vida, torna-se moribundo. A cada dia que passa. Não é forte para determinar um espaço, mas o choro no vazio de sua casa delimita, com carinho amargo, cada pedaço de seu corpo. O que o pertence além de si próprio e algumas quinquilharias? O som de sua própria voz já o torna surdo, e o véu sombrio da cegueira já não o permite ver que a verdade sempre se manteve a poucos passos. E é nessa distância que eu me encontro. Perdido, mesmo parado; esperando toque desse deslocado à minha frente. Meus ouvidos aguentam tão estridentes gritos, meus olhos vêm tamanha moral destruidora; e meu corpo, cheio de vagas virtudes, nos liberta. Sou tão dele, que fico dando saltos entre uma alma e outra.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

A volta

Aquele coelho, que mais parece gato, em cima da mesinha é prova que o real ainda é palpável. E de que o sentir, é hoje, nada mais que só significado. Significado perdido na trava da minha língua, encadeado no fio do meu cabelo. Raspado pelo tempo as coisas seguem, com a lógica de que são sempre libertas pela inconsciência da arte. Da arte da comédia que grita por espaço, do teatro, ABSURDO, que chega como bomba.
Essa mesa é informada, calma e precisada de carinho. O que falta aqui É espaço pra se abrir um caminho que leve á liberdade da informação sem os dogmas do moralismo. Ismo é a doença da palavra, a precedência da enfermidade.

O livro aberto e fechado, aberto e fechado, ao lado da cama é o campo de criação. Troca de artistas. Dizem que é coisa de homem. ELE está, à vontade, só de cuecas, no escuro. NARRANDO QUALQUER COISA. Mas a trilha sonora do - eu te amo- não carece de resposta. É bonito, silencioso e distante.
Que sirva de alento para o momento, porque o compromisso de não magoar mais é resposta certa; no desfecho de qualquer novo projeto. Seis, na verdade. Seis, numa contagem que poderia ser longínqua se não fosse a barreira que não faz questão de se deixar ser transposta.
Esse novo acordo da língua, não altera o sotaque. O livro na hora do banheiro vai ter o mesmo sentindo com ou sem hífen. O pós moderno assusta a contemporaneidade. Olha-se para o passado para se entender o futuro. Essa mesa nunca foi tão mal informada. Essa conta de energia está tão apagada.

A intensidade da obra, leia-se do momento, é a imaginação da fala. Pensas, aí de longe, que isso não é uma posse. Isso é empréstimo efêmero. Sem subjetividade. O grito da tua palavra, suja com qualquer coisa do sexo, torna inimigo aquele que sai às ruas para viver o irreal.

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Da cor: a suposta saudade

Deita-te:

"Há de voltar à luz aquele que ainda me olha nos olhos. De olhos fechados, com medo, agudo, da dor. Dessa dor que corta a cabeça de ponta a ponta, que faz pesar o ar, que pontua cada palavra. Que cria fendas no instante da caminhada.
Eu, minusculamente, acompanho. Divagando acompanhado, mas falando sozinho sobre a abrangência do tema mais cortante. Deixo no ar jogado o pouco que resta da verdade.
A verdade tem sabor amargo, não desce garganta a baixo, fica presa nos olhos. Esvai-se em lágrimas. A verdade.

Na busca de elementos para construção do que poderíamos ser, termino por encontrar aquilo que éramos, e então com a leveza do meu corpo, já tão cansado, atiro-me de cabeça no azul dos teus olhos... Dos olhos que na verdade nunca vi, mas que com amor sempre olhei.
A casa, com a mobília inchada pelo tempo, quiçá pelas lágrimas, agora é parte da memória que nos corta. A memória é o movimento desse silêncio. Desse silêncio que pesa, como o som do piano costumava fazer ao embalar o romance que fazíamos da vida. Com beleza. Sem verdade.
Com a esperança vaga de que as fundações da morada seriam cada vez maiores e fortes enquanto o mato crescesse do lado de fora; pronto para cobrir naturalmente os corpos, a mobília e as lembranças. A adição do metafísico à carne. A carne toca o corpo, vira alma e volta para o nada. Para o mato, lá de fora, que naturalmente vem.

E na busca incansável por uma condição para poder continuar, tuas forças acabam assim que bates à minha porta, com os braços estendidos esperando o cheiro de mofo que existe. Os panos brancos estão até no espelho, onde costumavam ser refletidos os corpos humedecidos de tanta raiva depois de calorosas disputas de reconhecimento. "Eu quero ser mais amado", era o que eu ouvia como "Estou aqui a teu dispor, teu amor é o reflexo do meu rosto".
A verdade, a casa vazia, a mobília sozinha, criam vida própria, dizem-me pra voltar. E eu volto, pra fingir que até aqui, no poço fundo que são teus olhos, que olhar pra cima durante à tarde simula o passado escuro e dolorido. Onde não via nada mas ouvia. Dos teus gemidos de prazer ao teu balbúcio de dor".

segunda-feira, dezembro 15, 2008

A ponte: fala silenciosa bem próxima do teu corpo

-Eles estavam de perto, se olhando. Dizendo palavras que eram quase mudas, por estarem tão perto do silêncio.

A busca pelo desejo de ser ainda consome, com calor, cada pedaço do teu corpo. O desejo de falar que o dia tinha sido cheio levou-te ao patamar mais baixo de consciência: Digo que estou vivo só para saber que estarás por perto quando eu gritar.
Quando o ruído passar e todo o som tiver deixado o teu corpo, eu deitarei-me em teu peito e hei de esquentar-te num sopro. O gelo nunca pareceu-me tão encantador como hoje, mas só em tuas mãos.
Abro mão de louvar teus poucos atos. A união consolida-se num vazio que não me cabe, mesmo enchendo-se de sorrisos. Se eu tivesse que transformar-te em algo bonito, serias um poço.

Bem fundo, vazio, e escuro. Não me irradia essa solidão. Nem esse cárcere de espera.
Como o teu sorriso, que vem pra abrandar as coisas, colocando-as em uma inércia que eu ainda desconheço.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Corrente: tua boca, minha palavra

De me colocar dentro de falas. De criar algo pra imaginar saindo de tua boca. Disso, realmente, parece que estou farto. Desse pulo de excitação que me assalta só pelo desejo. De pontuar cada traço do meu corpo, tornando-o o teu.
A falta de sentido leva-me, não forçosamente, a esquecer de analisar qualquer coisa. Minha raiva cresce tão rápido, que cobre meus olhos com tristeza. E preciso de gritos, dentro da cabeça, pra sentir-me acariciado. Um carinho inatingível, que vai e volta pra mim. como o rodeio interminável.
Ao redor da tragédia, criei meu próprio drama, que não envolve nada além das minhas próprias lágrimas, que inundam meu peito. E me derretem por dentro. Me derretam por tanto e em tão pouco tempo que cá estou esquecendo que vim pra dizer; e talvez querer escutar.

-Estive atrás de você.
-Pra quê?
-Pra contar que com essa mentira toda, essa casa sem teto e sem chão, tornou-se uma desejada morada. Que essa suposta verdade que encontra-se por trás do teu sorriso já me disse tão pouco; que eu passo achar que qualquer sinal significa muito.
-Posso estar errado - e esfrega o rosto- mas o que vês aqui, nada mais é que o meu todo.
Entrando com o corpo dentro da fala: Claro que sim, isso tudo que vejo é teu todo, o que me provas que pra mim ainda és pouco. Quero-te mais, sem o medo de sentir o frio subindo pela minha barriga até encostar minha garganta. Quero mais uma chance pra explodir.


-Cansado de tanto errar, decidi entregar-me ao vento. E... Fico circulando.

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Há algo sobre nós que preciso dizer:

O ranger desta mesa dá-me impressão de que parei, por um tempo, de ser eu mesmo. De que passei a emitir outros sons. Na realidade, emiti o som doce a minha voz, que parecia ranger, ao lado da tua. Como se de ti, viesse música. Não canso-me de repetir, que parcialmente, és incansável. Mas te ter por inteiro, a todo tempo ao meu lado, seria exaustivo. Um fardo que eu não teria capacidade de carregar. Teus ares pesariam e confrontariam os meus. Terminaríamos em lágrimas, com raiva.
Mas é com raiva que desligo o telefone, para subir com pressa e dizer, feliz, pra mim, que conversei contigo. Hoje [...] sei que não tenho, mas quero morada. Quero ter meus braços quentes e meu corpo rígido, mas não quero esperar o concretizar do meu desejo. E não esperaria que virias até mim com sua linda face, de comprador de corações. Prefiro a nobreza despretenciosa. Ai, como repito. Sou quase um computador. Deve ser essa nova cultura. Que me abraça toda vez que digo teu nome, prometendo-me morte mas enchendo-me de carinho.
Sou teu enfermo. Mas ao ver acabar as linhas do caderno, me curo; não deixo que meu orgulho adoeça. Prefiro não continuar dizendo. Antes que eu morra, minha cabeça estará doendo por, meticulosamente, organizar palavras; que depois não serão lidas por outro par de olhos que não os desejados: seus.
Não imprima novas folhas com este segredos. Eles são tão teus, que não cabem em mim. E é por isso que os mando longe: porque tenho tanto medo de te perder para algo vil, que te sustento e te inflo. -Mais uma caixa, guardada - Esta carta não é de mi para ti. É de uma posse tua para inflar-te o ego. Teu homem-selvagem há de caminhar veloz depois destas inacabadas linhas. Porque antes de acabar, o medo vem dizer-me que eu, ao contrário, tenho muito a perder. e este pedaço que escreve não sou eu. É maior. Se existe posse, és o demônio. Personifica-te naquilo que não acredito e vens dizer-me juras, de amor a todo instante. Eu sou prisioneiro de um desejo. Que controla-me. E impulsivamente perco-me em qualquer entendimento com a esperança de não estar me contradizendo, mas sim de estar levando-te algo de bom e belo. Já não acredito mais em mim sem antes acreditar no meu amor. E hoje, platonicamente, deixo em too o meu corpo; too o sentimento amoroso que eu posso dar: eu mundo de ódio. Um extremo doloroso, mas que por fim, acaba belo. Não hei de finalizar dizendo "te amo", mas sou capaz de declarar meu ódio para ver tua indiferença e desejar-te cada vez mais.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

O trêmulo movimento da boca, a minha

De novo, sem cuidados, o mural vai construindo-se. E ele vai, rumando calmamente, para a própria ruína. É a escolha.


-Ir embora. Foco minha vontade na alegria do ficar. Mas a ambigüidade ordena-me ir... Ir aonde? Aonde meus pés não são capazes de pisar, obviamente. Peço, encarecidamente, que algo fuja daqui.
Cansei-me da covardia toda. Da coisa que me envolve e que eu não sei contar. Acho, às vezes Moço, que tenho que criar personagens pra desvendar melhor quem eu realmente sou. Quando finjo não estar em mim, parece que o vento sopra mais. A brisa me faz lembrar da praia. Vês só, é tudo um amontoar de recordações, estampado em cada centímetro de mim. A minha última noite fora vívida, amável. Calorosamente tocante. E nesses pontos irrequietos encontro-me, junto de um ambiente em que, Moço, ninguém sabe o que se passa.
Não quero mais direcionar minhas palavras, quero até mesmo achar uma fonte, mas uma das boas. Posso até fazer pessoas lembrarem de mim por causa de alguma música muito chata, mas posso fazer alguém me esquecer em função de minhas frases ruins. Que bom que existe esse divã; deito-me nele, e a consciência parece até que melhor flui.
Invisto meus fundos, e escuto coisas do tipo: "Olha só, ele é guei?". Ainda bem que meu barulho individual, feito de um orgulho sintetizado, às vezes me protege de ouvir alguns tipos de barbáries. Quais?
Moço, eu quero dizer que estive num esconderijo hoje, mas não sei se posso entrar. Sei onde fica, fico sentado em frente olhando, mas não paro de pensar: a música pela manhã revelou-me novas percepções.

domingo, novembro 30, 2008

A imensidão escura

Posso descarregar com milhões de palavras um só sentimento: o de sentir. O puro sentimento de sentir que eleva-me a reflexões que só eu, num dia distante, serei capaz de entender. E que este estenda-se até tua morada. Distante, como o dia do entendimento.
Sou capaz de ficar aqui, quieto, olhando-te, porque agora és o único desejo que sou capaz de esconder. Todos os outros são de um conhecimento quase público. E ao redor da desgraça, paira um ar desconhecido. Outrora até gostaria de ouvir tua voz novamente. Vozes têm sido o maior desafio de minha vida. E não restrinjo-me a ti. Restrinjo-me a qualquer vontade, a qualquer brotar de emoção. A qualquer jorrar de verdade que pode ser lágrima, escondida num bocejo, carinhoso, de sono.

Na noite que não acaba, eu aceno para o horizonte esperando uma resposta que talvez nunca venha.

sábado, novembro 29, 2008

Aos olhos que sempre se fecham

Penso em qualquer canção que defina nosso estigma. Não encontro, porque somos o estereótipo do indefínivel. E para o que não se define, usam-se palavras complicadas. Prefiro simplificar e retificar que despedir-se não é bravo diante de mim. É covarde dizer-me adeus antes do dia acabar. As coisas não podem mudar e não peço que mudem, elas sabem a hora de partir e quem sabe o momento não seja este. Não me peça, nunca, para parar.
Me diga, se o amor é mentira. Sei que é algo que fazemos, simplesmente por fazer.
Não aguento a pausa. A distância de tua voz, soando estranha perto da minha, faz com que as coisas pareçam estranhas.
Adoraria poder simplificar, sempre poder simplificar, mas todo sentimento sempre há de andar nos lados em que não posso estar. Torno-me incapaz de dizer o que sinto, agora.
Preciso ver-nos sentados em qualquer lugar, sujo por sinal, pra poder tomar uma dimensão, imprecisa como todas do que pode estar passando-se a frente.
Esses carros todos, tentam explicar o que aquela mulher, grande, disse sobre a forma. Mas esse movimento nojento, não explica a forma de nada. Só complica o desenrolar até o fim. Essa língua presa só guarda as lágrimas, gritantes, aqui dentro da minha garganta. A córnea infla-se e por pouco não vejo nada. Estou entrando no estado teu estado. De excitação ludibriada, prometendo os fins, sem nunca ter um começo. Sem jamais existir um momento, eu imagino que sempre beijo-te a testa. Já que em tamanho és menor, aproveito-me de tua grandeza para beijar-te como rebaixado. Ínfimo, coloco-me, sem olhos impecáveis ao teu lado. E minhas palavras, querida, não conseguem, jamais dizer nada, quando meus olhos vêem o sol se pondo em mais um dia em que sinto nosso casamento cada vez mais forte. Somos mais dois, que não precisamos de contato para existir. Tua matéria, por vezes, pontua as linhas do meu dia. Transfiguras imagens para minhas cenas, és tão tênue que te perdes na névoa dos meus sonhos. E nem em poesia, eu sou capaz de dizer-te algo.
Terás sempre alguém para te abraçar, mas sinto que, mesmo de longe, sou corajoso o suficiente para sentar-me em qualquer lado e ver-te feliz, de longe. Bebendo voluptuosos goles de mais um clichê, que podemos chamar de amor. Mas a ele eu dou a forma da morbidez. Do inexplicável, que se complica em pensamentos difíceis e intrincados.
Quando acostumo-me com as regras, entre elas a de te ver, fica difícil burlá-las e fingir que não estás mais por perto. A distância, quando não existe, é só uma desculpa que criamos junto com o tempo que não existe.
Torno-te atemporal na decadência de minha consciência.

quarta-feira, novembro 19, 2008

Da confusa, verdade

De costas para seu principal ouvinte, tinha um mundo vazio à sua frente: uma parede branca expressava a suficiência de seus anseios; e com voz cansada, pausada, de desabafo, jogou palavras quase coloridas. Criou um mural:

-Há de chegar o momento em que poderei pensar em ser e remetido a um vazio sem nome. O nome do vazio, posso enganar dizendo que estou com um pouco de fome. Mas minto, lindamente, enrolando minha língua dentro da boca para dizer com outras palavras que fiquei muito surpreso com aparições inesperadas. Às vezes finjo acreditar em fantasmas, e burlo a minha própria vida.
É a isso que dou o nome de vazio: ao ato de burlar-me. De olhar ao redor e não me enxergar mais. Chego a ponto de pensar que me burlar é perder minha pequena paz. Nesse inferno segregado por mim, não há mais ninguém. Nem eu, que de longe da velhice só me sinto, por inteiro, dono de uma supostas juventude.
É então que perco a órbita, tiro-a do ponto comum, meus olhos se arregalam.
Hoje, olhar para frente fora difícil, quase gritante. Meu olhar quase substituiu minha voz; às vezes é bem melhor ficar calado. Assim, afasto-me de redundâncias, e não repito as mesmas coisas, como de costume.
Estou cansando, fraquejando, enquanto caminho sem dar passos.
O barulho desse desabafo soma-se infernal a medida que me enlaço num auto-abraço.

domingo, novembro 09, 2008

Realidade [in]completa

Mas que coisa é essa de ficar sempre tão calado?, esperando minha volta no meio da noite? Pensas que sou a personificação do trair? Não, na realidade eu sou uma questão sem fim. Não é mesmo? Desafio-te a ir até o lado de fora. Ver a realidade. O seu surrealismo, ainda não saiu de casa, e não precisa de mais nada. A realidade está do lado de fora e o esconderijo é o avesso.

Beijo-te só com meus olhares e minha boca inunda-te de vontades. Desafio-te a sair de mim, a correr sozinho, achando que estás ao meu lado. Não olhes para trás. NÃO! NÃO! Proíbo que tua pele toque em qualquer outro que não o chão. Apenas permito um elemento, o ar, a sentir tua pele. Corres nu de teus princípios, porque sei que tens tudo sem eles. Sem esse medo que aprisiona-te e que nunca te deixa ver aonde andam os camuflados. Os inimigos não usam mais verde. O velório é a sensação do agora; preferimos parar; andar, e continuar dando a impressão de que estamos mortos. Nos ditados da ordem, a moda é o comando primordial da ascensão. Se não, teu futuro é infinita queda.

Desafio-te a respeitar as regras: sou a proposta paradoxal. Corras nu e respeite as regras. Ande na moda. Tuas roupas são teus conceitos, teus princípios começam sem respeito. As palavras devem ser milimetricamente previstas, é a exigência para uma possível admissão. O beijo é o sinal de aceitação. Meu olhar severo, certamente quer dizer que te ama.

Desafio-te a esquecer o futuro, a ignorar o passado e conviver com o presente na velocidade dos três tempos. Que teus irremediáveis atos tragam frutos de inverno. Faça, e pense. Pilares da liberté.
Coesão é para fracos. Estamos na era do conceito. Na era da inexatidão, da coragem. Andamos armados de insegurança. Nossa arma favorita é o medo, que deve apavorar qualquer um. O teu medo das coisas é teu meio de sobrevivência. A revisão é a covardia do ato.

sábado, novembro 01, 2008

Fraqueza exprimindo energia

O silêncio era o que trazia à mente tudo o que precisava, e ele havia começado antes de o barulho terminar:

-Para não dizer tudo de novo, é daqui que começo, do ponto de partida que é meu fôlego, agora preso pelo desejo de contar um segredo. Cada palavra que sai de minha boca, soa como um segredo que nunca disse nem pra mim mesmo, que só aconteceu, como a chuva pela manhã que apagou o sol e esfriou de novo minha face. Estou violentamente feliz, como alguém já disse antes- estou voltando às raízes do que penso que sou.
A cadeira ao meu lado me serve de palanque, e dali conquisto o mundo. A palavra é minha didatura sobre mim mesmo, ou o dono da verdade e da mentira que foge de minha boca; sou a impressão gélida de alguém nem tão triste, mas tão feliz. O som metálico que acompanha o ritmo frenético de minha fala não acelera, mantém-se o mesmo enquanto o tempo atinge velocidade suficiente pra fazer cada palavra ser dita em menos de um segundo. Ele é o limite entre os paralelos. E enquanto eu estiver aqui, esta é minha casa, minha nova percepção. A ousadia ilimitada, a pornografia poética que vive sob o mar.
Na idade do metal, onde o pós é o que denomina o agora, fico preso. Com as pernas formando um v. Sou uma ponte entre o passado e o futuro, um ato em construção de algumas vontades e um mural de lamúrias. Encontram-se alguns em meus ombros para dizer-me amores, outros batem em meus braços como se fossem o vento. E nem sempre me reconfortam.

domingo, outubro 26, 2008

Rascunho

Agora, diante do meu silêncio, estou fixadamente olhando, a porta.
Na realidade, não é nada disso; não quero entrar num tema de infernos. Acho que estou sentindo um ciúme que nunca havia sentido antes. Um ciúme que nasce na distância das falas e no desencontro. Um ciúme que deixei crescer e que alimentei. Porque a falta que me fazes torna-me infantil demais a ponto de não reconhecer que sentir ciúmes é comum. Não sei se arrancarei alguma coisa dessa sua alma crescida e forte (a minha continua pequena e frágil... digo sem dramas).
Mas na última noite, escrevi uma poesia, com letras de sonho. Dizia que eras a beleza em forma de gente e que o sonho nunca acabava. Não havia ritmo e rima, eu escrevia certo no vão da minha mente. Literatura inconsciente.

-Como as coisas podem ter ocorrido assim? Da forma mais mascarada possível?

-Eu sei falar sobre o que quisermos, a menos que queiras dormir.

A cama ainda cheirava a suor e teor embriagado da imagem de um quarto envelhecido pelas roupas de brechó e pelas mantas de carneiro que traziam para o vazio um pequeno alívio à respeito de sua condição.

As pernas jogadas para o alto reluziam fortemente, eram quase espelhos.

A boca não conhecia a ruína nem a miséria:

-- Ah, lindo dia hoje, não?

domingo, outubro 19, 2008

Um tipo esnobe

As luzes acesas, surpreendentemente acesas, na sala de estar, não precisam estar ligadas, já que não havia ninguém em casa. Perdoando a fraqueza da narração da TV, ele estava deitado no seu novo divã, esperando que a história do dia começasse. Mas a propaganda de sempre, enrolava e aumentava a demora, tornando tudo muito cansativo.
Viajou os olhos até o outro lado, onde não havia luz, e até lá foi. Onde não consegue ver, consegue imaginar e quando imagina vai mais longe. Está onde não conseguiria chegar, acordado e lúcido. É como quando usa drogas, sente-se dentro de uma leitura fútil juvenil e eleva-se, pesado até onde pensa que é um local sublime.
Ele, como de costume, não consegue fazer com que ninguém o ame, até porque esse amor não é de verdade. Tudo é uma regra de contato, um novo protocolo de sobrevivência. Mas ao redor está escuro, os seus olhos cerrados dão a dimensão de que precisa. E no seu pensamento divaga.

"Se hoje possível fosse, explodiria um trem e voltaria a pé pra casa, beijaria meu pai na boca e me deitaria, incestuoso,na cama. O susto que a destruição do símbolo me traz é abstrato. Eu sou enjoativo, nauseabundo quando consigo. Porque geralmente meu ego não infla-se sutilmente. Não quero reservar minhas fontes... Estou acusando quem não conheço de algo que não sei se é real, por raiva de mim mesmo. Sou invejoso. Eu dilacero-me ao ver as coisas ruindo ao meu redor; as coisas que eu amo ruindo. E eu sei que posso fazer muitas coisas. Coisas coisas coisas, palavra que ficou em minha mente. Coisa, oia asco aí com as corisas. Tenho de rir para não me machucar."

A trajetória do relato não chega a lugar algum e a emergência de si, pretenciosa, o empurra a ficar sozinho. Parece que o que precisa é reconhecimento. É mentira. O que quer, é uma conversa de fora pra dentro. E quando imagina, está tendo.
Ele transforma seus ciúmes em raiva, sua raiva em lágrima, sua lágrima em desejo, seu desejo em excitação, sua excitação em gozo, e seu gozo em segredo. Ele representa, de forma concreta e real, o ciclo pútrefo do que é o humano no seu menor estado de graça. Mesmo com alguém por perto, não consegue sustentar-se. Ele é o tipo de gajo que despreza alicerces, pois tem orgulho e quer ser independentemente feroz.

domingo, outubro 05, 2008

Fragmento

Teu amor fez de mim um lago triste:
Quantas ondas a rir que não lhe ouviste,
Quanta canção de ondinas lá no fundo!

Espera... espera... ó minha sombra amada...
Vê que pra além de mim já não há nada
E nunca mais me encontras neste mundo!...

(Espera - Florbela Espanca)


sábado, setembro 27, 2008

Sense in the meaningless



"Do mesmo modo em que a chuva está a cair, os raios do sol me batem: com leveza no chão, e na superfície áspera de minha pele. O que vai, hoje não é o que fica e os ruídos das buzinas ornamentam invisivelmente meu dia. A terra é uma bola, magnética e sem fios. Os fios são os homens, que se sustentam sensivelmente; sempre precisando de uma linha tênue. A cesta que orbita é uma antena, que serve de berço. Berço em que me deito e durmo, sabendo que há quem olhe por mim de verdade. Metrópoles se formam em meu peito, permitindo a forma da fala estampada nos muros e nos cartazes das ruas. Tudo ferro, tudo propaganda. Modelos no sopé e no topo da montanha, tecidos voando no vazio do tempo e do espaço. A infinidade ínfima de nós. O tempo famoso que esvai com as cinzas do defunto. O homem-máquina, traduzido em todos os setores do corpo. A mecanização da alma, a morte do sentimento acontece em mim porque sentir faz bem à saúde, e queremos todos, bichos, tê-la em abundância, tentando enganar a morte. Metal batendo de leve na minha boca, pesando minhas orelhas. Estou aqui, exposto à atividade porque ela me obriga. Ela disse que verei-a de novo, e estarei na Magazine. A música não sai mais da minha voz, sai da minha cabeça e entra no rádio, diretamente, sem passar pelo meu coração e deixando meus braços leves, sem ter o que bater".

(Gran Colosso)

No campo tão verde, que contrasta com a hélices de energia seu vestido amarelo com de flor dança, desperta a alma que mora. Tão leve, seus olhos azuis parecem pequenas luzes que refletem o panorama indizível à sua frente. Ela ama, de soslaio, o mundo que não conhece e gosta como se não fosse sua casa. De menina aprendeu a desgostar do que era seu, já que admirava tão fielmente as outras garotas. "eu quero viver tudo fora de mim antes que o tempo passe e me prenda em minha própria eternidade".