Deita-te:
"Há de voltar à luz aquele que ainda me olha nos olhos. De olhos fechados, com medo, agudo, da dor. Dessa dor que corta a cabeça de ponta a ponta, que faz pesar o ar, que pontua cada palavra. Que cria fendas no instante da caminhada.
Eu, minusculamente, acompanho. Divagando acompanhado, mas falando sozinho sobre a abrangência do tema mais cortante. Deixo no ar jogado o pouco que resta da verdade.
A verdade tem sabor amargo, não desce garganta a baixo, fica presa nos olhos. Esvai-se em lágrimas. A verdade.
Na busca de elementos para construção do que poderíamos ser, termino por encontrar aquilo que éramos, e então com a leveza do meu corpo, já tão cansado, atiro-me de cabeça no azul dos teus olhos... Dos olhos que na verdade nunca vi, mas que com amor sempre olhei.
A casa, com a mobília inchada pelo tempo, quiçá pelas lágrimas, agora é parte da memória que nos corta. A memória é o movimento desse silêncio. Desse silêncio que pesa, como o som do piano costumava fazer ao embalar o romance que fazíamos da vida. Com beleza. Sem verdade.
Com a esperança vaga de que as fundações da morada seriam cada vez maiores e fortes enquanto o mato crescesse do lado de fora; pronto para cobrir naturalmente os corpos, a mobília e as lembranças. A adição do metafísico à carne. A carne toca o corpo, vira alma e volta para o nada. Para o mato, lá de fora, que naturalmente vem.
E na busca incansável por uma condição para poder continuar, tuas forças acabam assim que bates à minha porta, com os braços estendidos esperando o cheiro de mofo que existe. Os panos brancos estão até no espelho, onde costumavam ser refletidos os corpos humedecidos de tanta raiva depois de calorosas disputas de reconhecimento. "Eu quero ser mais amado", era o que eu ouvia como "Estou aqui a teu dispor, teu amor é o reflexo do meu rosto".
A verdade, a casa vazia, a mobília sozinha, criam vida própria, dizem-me pra voltar. E eu volto, pra fingir que até aqui, no poço fundo que são teus olhos, que olhar pra cima durante à tarde simula o passado escuro e dolorido. Onde não via nada mas ouvia. Dos teus gemidos de prazer ao teu balbúcio de dor".
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Não liga pra essas coisas não! É tudo reverbação! Tudo é oque vc espera e põe nas palavras, as suas maiores amantes. Somos palhaços enganando os seres humanos. Fantasmas artistas! Gozamos mais em nossos pensamentos! hauhau
ResponderExcluirDESCOBRI A CHARADA!
Essses espelhos forjados... o pior é não quebram, resistem ao máximo, passam a imagem mais distorcida possível pelo tempo em que lhe damos atenção indevida...e depois a gente sente falta...
ResponderExcluirum 2009 cheio de luz e novas artes!
=***
deixou de escrever para viver o irreal?
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