terça-feira, setembro 04, 2007

Zelando o comodismo

Joga no chão o olho e cai em cima de um papel gasto pelo tempo e pela chuva. Ajunta-o, surpreende-se e voa com os olhos sobre o papel marrom. Senta-se no chão e lê em voz alta, confiante de que não serão asneiras:

-" 'Benditas sejam as cobras que zelam meu pescoço e que me servem de cabelo enquanto caio com demasiada raiva por sobre os ombros do meu pequeno príncipe guardião! Quisera eu andar sob as águas e nadar nos céus. Se meus braços ainda tão cansados batessem contra o rosto de um mundo inteiro, não seria mais uma fonte de sangue. Restaria em minha carne apenas um monte de farpas, dentes e gravetos.'

Ao término do seu próprio bilhete, a única sensação era de erro. Tudo o que faria a partir daí seria falho e sem vida. Os cachorros, sentados, aplaudiam cautelosamente cada palavra e enfraqueciam suas pequenas mãos querendo parar. A febre agora pulsava dentro daquele alegre coração:
- Pois bem, meus companheiros e amigos, se aqui não estivesse hoje, jamais saberia da alegria que é compartilhar com alguém e com o Maior os meus anseios e as minhas poucas angústias.

Os cães uivavam agora sem parar diante das imagens fixadas na parede. A luz tornava aquele ambiente ainda maior e mais amplo, porém arrancava a fé que qualquer homem pudesse ter, assim como faz a verdade. Todos os olhos voltados para uma escada, as línguas balançando e pendendo da boca, alertavam a entrada de um Supremo.
Vestimentas amarelas e floridas faziam daquele enorme bolo uma pequena árvore:
- O que ouvimos aqui agora nada mais é que um sussurro da morte aclamando por um pouco de vida, meus amigos. As idéias dispersas sem amor não podem dar ao homem nenhuma racionalidade!
O orador da carta toma-se possesso:
- Enquanto tua racionalidade, ó irmão, se faz com amor e solidariedade! As casas estão escondidas em teus braços, sentindo-se acolhidas pela farça que chamas verdade, e tua colcha é costurada com ouro, teu travesseiro de diamantes e a tua língua é suja com lama. A tua cura é o Tormento!
- ... Vejam, Todos!, o que há diante de nós! Um grande enganador, manipulador, enriquecedor da vaidade humana blasfemando contras as verdades do Supremo! Venha até aqui e continue a oração de tuas lamúrias, criatura desprezável.

Levanta-se da cadeira vermelha e desliza suavemente através do tapete dourado, dominado por selvageria e brutalidade nos olhos:
- Não há mais o que ler, somente o que se observar. A lógica plena dos meus sentidos não se aguça só na argumentação. Há viva em alguns de meus instintos. Em escolhas emocionais dir-se-ia que uso de malícia, mas nelas apenas esqueço de racionalizar. Vivo como vocês, irracional e frágil, pensando na plenitude de pensamento que se afugentou em minhas costas... Bem, não perderei minha raiva dentro de uma casa de bárbaries."

A mente um pouco interditada. Uma nova fé abalada e contradições inúteis em vista do que já houvera pensado agora o transformam em uma velha carcaça sem mudança e sem esperança de tentar falar consigo próprio.

2 comentários:

  1. Estou mais que boquiaberta, isso é miseravelmente enriquecedor...
    como você consegue ser doentiamente lindo... me surpreende, de verdade; tçao belamente...

    ...

    ;***?!

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  2. nadar no céu seria tãããão cooool :}

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