Desde cedo o dia abre-se cinza, as primeiras nuances são escuras, passam-se algumas horas até vir a coragem de adentrar a porta. Aquele cheiro de sempre, exalando das rugas, é muito marcante. Parece um mofo, incomoda-me o nariz, mas é preciso relevar pois este corpo me pede um respeito que parece que não sou obrigado a obedecer. Tem vezes que olhá-la, rememora-me um ritual infinito, imaginário: limpar sua casa, lavar sua louça, nunca tocar na sua comida; jamais perguntá-la os motivos de porquê ser assim.
Sento-me e noto que as paredes sugerem figuras e me entretenho por um tempo até que chama "vem, está na hora". Muito forte o apelo da crença agora, quando levanto-me para agradecer, com um gesto de corpo, para que todos notem, inclusive Ele, que todos os esforços são compensados nesses momentos em que partilhamos.
Questiono sobre aonde ficaremos: sentaremos aqui. Frente a frente. Eu no sofá, ela na mesa. Ainda mereço um tanto de conforto; ela resiste forte, segue a função, obedece a moral.
A porta colorida numa tentativa de bordô aquece, contrasta esse dia supostamente frio mas sufocante, abafado. Ruboriza toda a pele exposta, tenho vergonha de ficar nessa casa. Tudo tão perto, tão aberto e intocável ao mesmo tempo. No prato, um pouco de comida, um pouco de comida, um pouco de comida, para nós dois. Peixe, arroz, limão. A providência máxima de sentimento que invadiu-me o peito, uma única vez. Não a vejo mais. E lembro, hoje, ao acordar, do mofo perfumado que ficava exalando do corpo envelhecido.
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Os espaços divididos por tempo demasiado e em demasia, tomam a forma da gente/a forma do outro. Talvez seja isso que chamas rugas.
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