quarta-feira, novembro 19, 2008

Da confusa, verdade

De costas para seu principal ouvinte, tinha um mundo vazio à sua frente: uma parede branca expressava a suficiência de seus anseios; e com voz cansada, pausada, de desabafo, jogou palavras quase coloridas. Criou um mural:

-Há de chegar o momento em que poderei pensar em ser e remetido a um vazio sem nome. O nome do vazio, posso enganar dizendo que estou com um pouco de fome. Mas minto, lindamente, enrolando minha língua dentro da boca para dizer com outras palavras que fiquei muito surpreso com aparições inesperadas. Às vezes finjo acreditar em fantasmas, e burlo a minha própria vida.
É a isso que dou o nome de vazio: ao ato de burlar-me. De olhar ao redor e não me enxergar mais. Chego a ponto de pensar que me burlar é perder minha pequena paz. Nesse inferno segregado por mim, não há mais ninguém. Nem eu, que de longe da velhice só me sinto, por inteiro, dono de uma supostas juventude.
É então que perco a órbita, tiro-a do ponto comum, meus olhos se arregalam.
Hoje, olhar para frente fora difícil, quase gritante. Meu olhar quase substituiu minha voz; às vezes é bem melhor ficar calado. Assim, afasto-me de redundâncias, e não repito as mesmas coisas, como de costume.
Estou cansando, fraquejando, enquanto caminho sem dar passos.
O barulho desse desabafo soma-se infernal a medida que me enlaço num auto-abraço.

3 comentários:

  1. estás cada vez mais perto do coração selvagem;
    e eu tola, ivejo.

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  2. tão importantes, creio.
    nossos vazios são nossos motes para nossas histórias reais :)

    até mais, Ruan :)

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  3. Estou dentro desse momento!

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