sábado, julho 26, 2008

De carne e osso

O vazio de seu organizado quarto demonstra que o tempo ocioso passou. Ocupando-se esquece de ninharias como a cama com cheiro de corpo e as mudas desorganizadas pelo assoalho. A limpeza esconde a sujeira de seu habitante. Ele é um homem como qualquer outro. Os pêlos já se espalharam pelo corpo, a voz tornou-se austera e ríspida o suficiente e seu olhar já é capaz de congelar passos. É maduro, perto de ser podre.

Acostumado a olhar somente o horror, porque o tempo vzio não o dominava, era iludido pelas curvas artificias que exibiam-se no quadrado de vidro. Com o acúmulo de tarefas não havia minuto para silêncio. E agora que há, tranca-se no quarto e vê tudo. Novo. A morada não precisa de baderna para ser rebelde. Ele de veludo e seda é rebelde. Seus lábios de tão grossos aparentam estar junto o tempo todo; até mesmo quando grita parece estar calmamente falando.

Com os olhos fechados constrói corpos admiráveis, mundos perfeitos, pessoas incomuns e revoltas; no fundo, por mais belo, ele é a paisagem do pandemônio. É o paradoxo do equilíbrio.
Até mesmo seu corpo, por inteiro sozinho, diante de outro não acalma. Ele gera a violência sem pressa, tornando-se alvo de vontade que só o corpo sacia.
O tempo vazio em seu mundo conseguiu transformá-lo num agridoce inconfundível, que desperta felicidade e logo em seguida acorda a amargura.
Ele transformou-se, novamente, em homem

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