- Quem disse meu nome? - tira o cigarro amassado do bolso da calça jogada na cadeira.
- Não sei, acho que estás a ouvir coisas! - puxando os cabelos para cima do peito.
- Não poderia. Essa onda foi forte demais. - colocando os braços ao alto- Veja, ela levaria meus braços aonde quer que fosse. Tão nítida...
- Mas estamos sozinhos aqui, não há que te chame a não ser eu. E não o fiz.
Senta-se na cama, olha as cortinas, cheira as mãos, esfregas os olhos e os abre muito bem, como se quisesse explodi-los:
- Não me droguei hoje, meu bem. Os efeitos não existem. Se estamos a sós aqui por que estás tão menor? Onde mora a plena confiança que estabeleceram os nossos corpos?
- Não quero dizer nada sobre isso. - puxa a coberta macia de pêlos vermelhos e cobre a boca- É estranho te ver assim, tão reluzente, sem vestes e sem maldade. Olhe nos meus olhos. Isso é o que nos basta.
- Entendo perfeitamente. Não receio teu corpo de forma passageira. - cobre as pernas e a luz que vem da janela torna o abdômem rosado- Se o for, lhe almejo para sempre nos instantes em que for meu. E como se fosse a última vez - dá uma tragada no cigarro- não hesitaria em dizer que te amo. Te amo - joga o cigarro fora e os lábios se tocam de longe, pelo ar.
- Isso me envergonha. - e cobre as bochechas rosadas- Quem lhe veio a cabeça quando alguém te chamou?
- Sabes que não sei. - coça a cabeça em sinal de confusão.
- Talvez a idade esteja chegando e ainda nem destes conta disso. - joga-lhe um sorriso de deboche.
- Sou muito jovem pra ensurdecer. Ouço até aquilo que não me convém, que não me diz respeito, que me envergonha. O primeiro sintoma da minha velhice seria a cegueira. Veja, meus olhos ardem demais. Culpa dos azuis! Primeiro ficaria cego com o propósito de não ver as ações de destruição... A imagem sempre me castiga.
Levanta-se da cama, mostra-se por completo denovo. Caminha com passos serelepes até a janela e olha para a cama. Os olhares estão fixos:
- Antes de envelhecer, preciso ter a sensação da tua imagem. Porque sei que te ouvirei até o último dia da semana.
Puxa o pano vermelho e admira as curvas, os traços, os flancos, o batom vermelho, o pálido da pele; a escultura exposta.
Levanta-se da cama e vai em direção a ele. Toca o rosto e diz:
- Agora já podes sair, meu velho!
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Adorável a forma como metáforas podem se esconder em descrições... eu pelo menos aguço essa inocência à quase acusação; e me fascino!
ResponderExcluirAo contrário de mim, os livros te fazem muito bem meu caro!
;********* meu bem!
obrigada, pelo comentário.
ResponderExcluirótimo blog também.
beijo
Vou passar mais aqui.
"quando me vi tendo de viver comigo apenas e com o mundo...a riqueza que nós temos ninguém consegue perceber..."
ResponderExcluir(O teatro dos vampiros)
E não há escultura mais bela que essa carcaça que nos carrega; cheios de paradoxos, defeitos e perfeições tão sutis e tão exagerados...
Um texto envolvente.
sopros de luz!
=*