quinta-feira, maio 03, 2007

Ajuda-me, Vida!

Num momento, distante de sua capacidade e incrédulo de sua convicção, tentou fazer pedidos ao além e a tudo mais que qualquer um recorreria:

- O que será melhor, a não ser a morte? Por quais motivos deveria eu continuar me massacrando?: Isso é muito sadismo da vida para comigo. Qual é o prazer que tu, vida, sente em me trazer do nada ao nada? Sei que tu estás a provar de que o que veio do nada, ao nada voltará.
- Mas veja bem se tu me entendes; eu não queria estar nestas condições que me ofertastes. E não me venha com estes termos clichês, de que só porque me oferecestes, tive que escolher, porque sabes bem que não é assim. É menos ou, mais. Bem menos ou, bem mais.
- Poderia eu ir numa lojinha de esquina e me entupir de doces e guloseimas, enquanto do outro lado do mundo o moribundo clama por comida? Poderia eu olhar pra mim mesmo e me ver belo e feliz diante de minha condição de espírito? Sei que não. Sei que posso ser feliz em estar me ajudando, em estar me preservando. E gosto mesmo de exagerar e de me contradizer ou então, pelo contrário, não seria eu.
- Gosto de exagerar nos meus gestos, gosto de me fazer expressivo até na alegria, gosto também de cantar ao silêncio as músicas que inventei. E sou ciente de que só tu sabes o que contruo; nem eu sei o que construo. Mas bem, isso não vai ao caso.
- Porque o que vai ao caso és tu, vida. Vida essa que me faz existir, vida essa que não me faz só um corpo inerte. Maldita vida esta que me faz sonhar! Maldita vida esta que me fez sonhar! Maldita vida que me deu o viver!
- Não quero mais todas aquelas palavras enjoativas que são proferidas nas praças públicas ou nas casas de família. Quero as minhas palavras, as minhas influências, quero me desdizer, quero voltar a ser, quero voltar e ser denovo. Vida, deixe-me viver!, ou tira-me o ser!
- Precisaria eu morrer mil vezes e ver mil vezes tudo denovo para absorver e drenar aquilo tudo que me saiu pela boca e deixar de ver as desgraças de minha existência. Vida, salve-me! Vida, exila-me! Ajuda-me, Vida!


...E em todos estes momentos, ele sonhou que era algo que não podia ser e se transmutou para o que hoje chama de humano. Será sempre um animal, imutável animal recorrendo à vida por qualquer motivo.

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